• Sérgio Dias Branco

A figura de uma fábrica de tudo ou de uma fábrica onde tudo cabe
A Fábrica de Tudo

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O passado recente em Portugal, o período da troika e do governo PSD/CDS-PP, o tempo de uma vida penosa para a maioria dos portugueses, tinha de ter os seus filmes. São Jorge (2016) ficará como um deles. A Fábrica de Nada (2017) também. Pode haver a tentação de valorizar este segundo filme como um «filme político», como se todos os filmes não o fossem, menos pelos seus temas e mais pelo seu olhar, pela sua posição, pela sua visão no e do mundo. Talvez possamos falar, em todo o caso, de um filme politizado, na linha do que escreveu Walter Benjamin. Isto é, uma resposta à transformação da política numa espectacular máquina de sedução que exclui a reflexão. À esteticização da política contrapõe Benjamin a politização do fenómeno estético e artístico. A via de A Fábrica de Nada é esta e isso nota-se desde logo no seu aspecto pouco polido, não aprimorado, mas muito elaborado.

A Fábrica de Nada partiu de uma ideia de Jorge Silva Melo: adaptar a peça com o mesmo título de Judith Herzberg como um musical. A tradução de David Bracke e a adaptação de Miguel Castro Caldas foram publicadas na colecção «Livrinhos de Teatro». O espectáculo estreou a 7 de Novembro de 2005 na Culturgest, em Lisboa, e foi mostrado diversas vezes em diferentes locais. Pouco sobrou no filme do texto original. O argumento foi escrito por Pedro Pinho, responsável pela realização, Luísa Homem, Leonor Noivo, e Tiago Hespanha, combinando diferentes sensibilidades. O filme é um objecto complexo, com múltiplas camadas e blocos, contrastantes e dialogantes. A obra foi distinguida com o Prémio FIPRESCI da Federação Internacional de Críticos de Cinema quando foi apresentada no Festival de Cannes de 2017.

A narrativa desenrola-se na zona industrial de Alverca do Ribatejo. Os operários de uma fábrica apercebem-se que os patrões mandaram retirar máquinas e matérias-primas pela calada da noite. Decidem organizar-se para impedir o encerramento da empresa e o deslocamento da produção. A nova administração negoceia despedimentos e, durante esse processo, retalia contra os operários, obrigando-os a permanecer nos seus postos de trabalho sem nada para fazer. A solução talvez seja a auto-gestão colectiva e planificada dos trabalhadores.

Diferentes peças de um todo

Esta longa-metragem de ficção, com algumas componentes documentais, confronta uma paisagem de desmantelamento do aparelho produtivo em Portugal, empresas fechadas, edifícios abandonados, vidas destruídas. Fala-nos de quem as tenta salvar, da sua vontade e das suas dificuldades. A estrutura episódica de A Fábrica de Nada coloca em crise a própria ordem do cinema, como se a crise que retrata contaminasse a sua forma. É essa estrutura que justifica as quase três horas de duração do filme tornando-o num quebra-cabeça em que diferentes peças formam um todo. Que todo é esse? A figura de uma fábrica de tudo ou de uma fábrica onde tudo cabe, porque tudo está ligado. Há cenas rigorosamente encenadas, nomeadamente entre as personagens interpretadas por José Smith Vargas e Carla Galvão, operário e manicure, um casal em desagregação. Há cenas improvisadas, próximas do cinema directo, cuja energia nasce do facto de os outros operários serem encarnados por pessoas que viveram situações semelhantes. Há entrevistas a alguns desses operários, nas quais falam sobre a sua vida difícil e as mudanças negativas que ocorram no País. Há cenas musicais, nas quais se celebra o trabalho colectivo e cooperativo com criatividade, dirigidas por um realizador argentino, um observador muito participativo. Há discussão teóricas, com pontos de vista distintos, que por vezes parecem completamente distantes da realidade dos operários que o filme mostra. Há momentos de convívio, concertos, refeições, que inscrevem o drama dos operários numa rede social de cumplicidades e encontros.

Interessam sobretudo as ligações, os nós. Ao longo de A Fábrica de Nada, ouvimos excertos de textos do Comité Invisível, um grupo anónimo de anarquistas franceses. O filósofo Anselm Jappe, autor de As Aventuras da Mercadoria: Para uma Nova Crítica do Valor (Antígona, 2006) influenciado pelo situacionista Guy Debord, tem uma presença destacada. Também a apresentação da peça encenada por Silva Melo tinha sido acompanhada por um conjunto de excertos do Grupo Krisis, do austríaco André Gorz, da francesa Dominique Méda, do alemão Ivan Illich, entre outros. Podemos sempre dizer que faltam outras perspectivas, mas isso é inevitável. Utilizando diferentes linguagens, sobressai uma questão prática estruturante no pensamento de Marx sobre o capitalismo: a da luta (que também é cultural) pela emancipação social das actividades produtivas, libertando-as do domínio da necessidade do trabalho assalariado, da força de trabalho tornada mercadoria. Se isto parece utópico, é porque nos é dito que não há alternativas à realidade actual, precisamente por quem a quer manter como está. Mas há momentos e entrelaçamentos que têm o potencial de as revelar. Por isso, o filme trabalha sobre ausências e fracturas como as máquinas desaparecidas, as encomendas em falta, o escritório vazio dos proprietários, ou as armas escondidas no período revolucionário, onde germinam outras histórias. A Fábrica de Nada põe-nos, portanto, a sentir e a pensar sobre a situação destes operários, sobre os seus combates, os seus dilemas, as suas decisões. Não nos dá respostas ou soluções, porque essa não é uma tarefa da arte, mas da política. Mas coloca-nos perante perguntas críticas, inquietantes — e o labirinto que elas criam.

 



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