• Hugo Janeiro (texto) Inês Seixas (Fotos)

A mesma disponibilidade que houve para salvar a banca tem o Governo que demonstrar
Orçamento do Estado tem de estar ao nível da solidariedade do povo face às tragédias

INCÊNDIOS Jerónimo de Sousa visitou no domingo, 5, zonas atingidas pelos incêndios de 15 e 16 de Outubro e defendeu que o Governo tem que concretizar apoios imediatos para que os afectados possam «fazer face à vida. Agora.»

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A primeira paragem do Secretário-geral do PCP foi em Vila Cova do Alva, no concelho de Arganil, na exploração agropecuária de Natalina Jorge. O caminho até lá chegar, feito por entre quilómetros e quilómetros de área ardida no distrito de Coimbra, deixava antever o cenário que encontraríamos. Mas a confrontação com a realidade consegue superar os prognósticos mais pessimistas.

Natalina Jorge relatou a Jerónimo de Sousa e à delegação comunista que o acompanhava – Francisco Lopes e Alexandre Araújo do secretariado do Comité Central, Vladimiro Vale, da Comissão Política do CC e responsável pela organização Regional de Coimbra, entre outros dirigentes locais do PCP – uma versão sintética do filme dos acontecimentos. As chamas galgaram imparáveis destruindo o ovil até às bases e matando cerca de 170 ovelhas. Sozinha, Natalina Jorge defendeu a casa e a queijaria com baldes de água e até que as mangueiras derreteram. Conseguiu salvá-las, ao contrário do Ovil e do palheiro onde se encontravam 800 fardos que garantiam o sustento dos animais.

As ovelhas que escaparam têm as tetas queimadas, inviabilizando a continuação da produção de queijo da serra, produto de que Natalina Jorge tem certificado e a respeito do qual não esconde o orgulho.

Mas a tristeza e a incerteza são igualmente indisfarçáveis naquela produtora que, assegurando que não pretende desistir, desabafa que «sozinha não consigo». Carecem apoios públicos. Para já, além da solidariedade do povo português e de profissionais veterinários, Natalina Jorge não viu mais nada de tangível, algo que lhe dê a perspectiva de poder continuar, como sonha.

Alguns animais, financiamento para a reconstrução do Ovil e do palheiro é tudo quanto reclama para prosseguir uma actividade que já esteve para abandonar, mas na qual insistiu porque «o meu neto está desempregado e o meu filho encontra-se emigrado na Suíça, e era para que eles pudessem pegar nisto que eu levei até aqui».

Fazer acontecer

Jerónimo de Sousa despediu-se da exploração agrícola em Arganil deixando palavras de confiança e o compromisso de o Partido tudo fazer para que a vitalidade do mundo rural abalada pela tragédia seja conservada e impulsionada. Rumou ao concelho vizinho de Oliveira do Hospital, Serra do Açor a fora, onde há habitações que, desafiando toda a lógica, permanecem de pé entre as cinzas que configuram agora a paisagem.

Oliveira do Hospital foi dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 15 e 16 de Outubro. O rasto das labaredas e o cerco a que chegou estar sujeita a cidade advinha-se não apenas nas redondezas mas igualmente ao entrar na malha urbana. Na zona industrial, Fernando Brites recebe a comitiva comunista.

Este pequeno empresário lutou durante mais de 40 anos para manter a fábrica de móveis e caixilharia em madeira no interior de um País tanto mais despovoado e abandonado pela política de direita quanto mais nos afastamos do Litoral. Fernando Brites foi parcialmente derrotado pelo fogo. Parcialmente, não de todo. «Já aluguei um outro pavilhão e com os 11 trabalhadores tentamos cumprir com as obrigações», conta ao Avante!.

Já na fábrica em escombros, entre destroços calcinados e pedaços de metal derretidos pelo calor, Fernando Brites emociona-se ao testemunhar o que sucedeu. Mas também quando apela a que o ajudem a reconstruir, que é como quem diz «a comprar máquinas e matérias-primas para recomeçar».

No final da visita, o Secretário-geral do PCP, defendeu «medidas urgentes» para «acudir às vítimas». O que não é incompatível com o lançamento de medidas de fundo, e muito menos com a continuação da reposição de direitos e rendimentos aos trabalhadores por parte do Governo, como alguns, a pretexto da necessária ajuda às populações assoladas pelos incêndios, começam a advogar, lembrou.

«A mesma disponibilidade que houve para salvar a banca» tem o Governo que demonstrar, designadamente concretizando no Orçamento do Estado para 2018 as verbas necessária para que as pessoas possam «fazer face à vida. Agora!».

«O que sobrou em solidariedade do povo português não pode faltar em medidas orçamentais», concluiu.

 



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