• Miguel Inácio (texto)
    Inês Seixas (fotos)


Não basta rezar. É fundamental tomar medidas excepcionais
PCP reclama apoios excepcionais para enfrentar a seca que assola o País

SECA Num périplo pelo distrito de Castelo Branco, Jerónimo de Sousa visitou, sexta-feira, explorações pecuárias e frutícolas e passou pela Barragem da Marateca. O PCP exige «medidas excepcionais» que minimizem os efeitos da seca extrema.

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De Lisboa a Castelo Branco são pouco mais de 200 quilómetros, uma viagem ao «coração» do País que, numa outra altura, seria deslumbrante e inspiradora. A partir de Abrantes em direcção a Norte, o rasto de destruição é aterrador. As cores do Outono deram lugar ao negro que mancha a terra e magoa pela sua brutalidade.

Este panorama alia-se a actual situação de seca. Segundo os últimos dados avançados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), cerca de seis por cento do País está em seca severa e 94 por cento em seca extrema.

No passado dia 17, o Secretário-geral do PCP deslocou-se ao Sul da Gardunha, com o objectivo de conhecer melhor a realidade, de forma a apresentar soluções e respostas para os problemas. Também aqui todas as culturas estão a ser afectadas pela intempérie, principalmente as pastagens, frutas sazonais, a vinha e o olival.

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Vidas pobres
A primeira paragem foi na vila de Atalaia do Campo, no concelho do Fundão. Na pequena exploração de João Oliveira Boavida as 700 ovelhas já não dão leite – normalmente vendido para a produção do queijo da serra genuíno – porque não têm nada para comer a não ser palha.

«O ministro da Agricultura promete muito e cumpre pouco. O que é certo é que ainda não deu nada. As medidas têm de ser rápidas. Se formos atenuar os animais morrem todos», desabafou o pequeno produtor, que diz estar já a passar necessidades: «Deixo de comer para lhes dar a elas. Se as ovelhas se vão abaixo fico sem nada.»

Entretanto, tirar a água que resta nos poços para cultivar a terra não é solução para «lavouras pequenas e vidas pobres», porque o gasóleo e a electricidade utilizados para o efeito «custam muito dinheiro».

«Tenho mais três rebanhos fechados a comer palha» e «os meus colegas (produtores) estão na mesma situação», acrescentou. Cada fardo de palha está a ser vendido a 30 euros, o dobro do preço que se costuma pagar. «Quando há fome tudo carrega para subir mais os preços», criticou João Oliveira Boavida. Teme que «no dia em que chover uma pinguinha tudo se esqueça».

Recursos desaproveitados
No local estiveram ainda dirigentes da Associação Distrital dos Agricultores de Castelo Branco (ADACB). Mesquita Milheiro entregou uma carta a Jerónimo de Sousa onde se retrata a situação que se vive na região. Um dos problemas levantados foi a necessidade de construção de um regadio para o Sul da Gardunha. «Existem recursos hídricos que não estão a ser aproveitados», alertou o dirigente da ADACB, defendendo que «parte dos 90 mil hectares de regadio» previstos para o País, recentemente anunciados pelo primeiro-ministro, «deviam ser implementados nesta região».

Defendendo uma hierarquização da distribuição da água, o Secretário-geral do PCP ilustrou que prefere «ter água» para os animais, do que para «regar um campo de golfe». «São precisas opções neste quadro previsível de agravamento da situação. Não basta rezar. É fundamental tomar medidas excepcionais para garantir que não falte água ao ser humano», mas também «ter em conta as consequências para a agricultura», uma vez que «há factores que não são recuperáveis», como «as sementeiras e as produções próximas», acentuou.

Sérios riscos na distribuição da água

Jerónimo de Sousa dirigiu-se, depois, para a Barragem da Marateca, que abastece de água para consumo as freguesias de Aldeia de Sta. Margarida, São Miguel D’Acha, Proença-a-Velha, Oledo, Idanha-a-Nova e Ladoeiro (concelho de Idanha-a-Nova), a maioria da população do concelho de Castelo Branco e ainda parte do concelho de Vila Velha de Rodão.

António Teles, eleito da CDU na Assembleia de Freguesia da Lardosa, informou que até ao momento «a retenção da água vai satisfazendo as necessidades», apesar da perda de água, porque as condutas já não têm condições. Este equipamento, localizado no rio Ocreza, um afluente do rio Tejo, entrou em funcionamento em 1991.

Os problemas podem acontecer, no entanto, com as «primeiras chuvadas». As cinzas resultantes dos grandes incêndios podem afectar a qualidade da água. Apontada foi também a aplicação de pesticidas num cerejal junto às margens, situação que poderá ter desencadeado a morte de peixes na albufeira.

Para além da falta de água no Tejo, que pouco corre ali perto, relatada foi também a poluição a que o rio tem sido exposto por causa do despejo de águas residuais vindas de Espanha e do arrefecimento de reactores nucleares, como é o caso da central nuclear de Almaraz.

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Ir mais longe para acudir à catástrofe

O périplo terminou no Louriçal do Campo. A agricultura é a principal actividade económica da freguesia.

Na empresa familiar «Frutas Almério», fundada em 1992, a situação é preocupante. Os pomares de cereja continuam a ser regados, uma situação atípica nesta altura do ano.

Naquela propriedade com seis hectares, onde não existe regadio, «estamos constantemente a “bombear” água da barragem para o furo e do furo para o tanque», o que «fica caríssimo», lamentou Almério Ribeiro. Segundo revelou, nos últimos dois meses já gastou uns bons milhares de euros só em electricidade. Esta situação de seca pode ainda afectar a produção do próximo ano. «As árvores já estão em stress. Se não chover vai ser uma catástrofe», garantiu.

Luís Xavier, de Alpedrinha, alertou, por seu lado, para a diminuição da produção de azeitona. «Nesta altura, a produção de azeitona para conserva era um bom rendimento para as famílias. Com a seca a azeitona vai toda para o lagar. A diferença do preço é significativa», precisou.

Aos jornalistas, Jerónimo de Sousa voltou a referir a exigência de «apoios efectivos» por parte do Ministério da Agricultura e que a União Europeia accione o Fundo de Solidariedade, de forma a minimizar uma catástrofe iminente que será social, económica e ambiental.

No «futuro», advertiu, poderão voltar a acontecer estes episódios, atendendo «à falta de respostas a problemas estruturais».

Neste sentido, insistiu na necessidade do aumento da zona da área de regadio para o Sul da Gardunha, uma reivindicação muito vincada da região da Beira Interior, que permitiria aumentar a capacidade produtiva, bem como a sua diversificação.




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