• Domingos Lobo

José Carlos Ary dos Santos foi sempre um poeta de pé, de coragem, de afrontamento. De causas.
Nos 80 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos

EVOCAÇÃO Conheci o Ary em 1963, quando saiu A Liturgia do Sangue, livro que abalaria as regras do juizinho conformado em que a cultura oficial do regime parecia vegetar, que revolucionaria a paisagem poética do burgo e trazia já nos seus poemas de raiva e desespero o grito rebelde de um autor que trazia à poesia portuguesa dos anos 60 (sobre a qual Gastão Cruz, com outras vozes líricas da Poesia 61, havia já iniciado um salutar projecto de renovo conceptual), uma voz pessoalíssima, a um tempo dramática e irónica, corajosa e combativa: Todos sofremos./O mesmo ferro oculto/Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.

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Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.

J.C. Ary dos Santos, in Sonata de Outono

 

Dir-se-ia que esta rebeldia, que numa leitura atenta denunciava as atrocidades do fascismo, a guerra nas colónias iniciara-se em 1961 e esse facto não passou ao lado da poesia deste poeta sensível, solidário e atento aos grandes acontecimentos sociais e históricos do seu tempo: Jovem/Coroam-lhe as giestas os cabelos/Generosas e loiras como fora/Jaz no imenso campo/E é um grito/Que o vento, que o incensa,/Chora// Morto./Seu corpo liso e belo que vivera/Como as papoilas acres, dorme agora. E seu olhar azul é uma estrela/Que a terra que o sepulta,/Ignora.1 Paralelamente, Ary deixava, pelo estilete certeiro das palavras, sinais esparsos da esperança possível, a Árvore e fruto duma seiva nova, mesmo que a voz do poeta surja, irmanada já com a voz dos que queriam e lutavam por um tempo justo e novo Dos abismos da ira levantamos/As vozes, os protestos e as trombetas, mas sem perder a ternura, o acervo lírico que envolve todo o seu labor poético, mesmo quando o desencanto ou o desespero atravessa esse discurso: Como se fosses noite e me atirasses/Uma corda de músculos e rosas./Como se fosses noite e me deixasses/Deslumbrado com todas as sombras,/Com todos os silêncios.

José Carlos Ary dos Santos, passando nos seus livros posteriores por algumas influências geracionais, transforma-se, nos finais dos anos 1960, através dos seus versos para as cantigas, num poeta conhecido do grande público, mas pautando essa intervenção na música popular pelos mesmos critérios de exigência e rigor poéticos que impunha à sua obra mais formalmente empenhada. E foi, a partir da Revolução dos Cravos, o mais consequente poeta de Abril, o que esteve sempre, fraterno e cúmplice, na primeira linha do combate; o poeta generoso e lúcido, que mascarava, com o manto diáfano dos excessos, a sua íntima, profunda solidão; poeta que era, igualmente, a voz que plena, emotiva e certeira dizia as palavras necessárias e urgentes; o poeta solidário, morrendo aos poucos de ternura; o poeta dos instantes, dos dias altos, levantados, irrepetíveis de Abril.

Poeta erudito e popular

Voz e palavras conjugadas num raro, inato talento de prestigiador, transformando, com engenho e arte, como Gabriel Celaya definiu, a poesia «numa arma carregada de futuro». E essa voz, e as palavras que ela veiculava, ajudaram, de forma perene, a construir Abril, a edificar esse canto maior, uníssono, essa memória da nossa colectiva alegria, da geral libertação que todo um Povo, erguendo-se do chão raso da vergonha e da ignomínia, pôde viver e sentir, e apossar-se, fazendo da Liberdade uma razão e de Abril e Maio a sua lança para os dias do futuro.

Poeta a um tempo erudito e popular, ele conjugou, no seu modo peculiar de escrever, nesse pessoalíssimo e fecundo percurso criativo, a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência.

Próximo, por circunstâncias geracionais, do grupo da Poesia 61, ao qual só episodicamente pertenceu, mas tendo, na construção estilística, morfológica e imagética afinidades com alguns poetas do surrealismo, cuja influência está patente no seu livro Adereços, Endereços (1965), José Carlos Ary dos Santos cedo revelou possuir o sentido de busca de uma identidade, de uma voz própria, de invenção discursiva, um estilo, uma prosódia inconfundíveis – que se manifestava na abordagem de temas fracturantes –, que o tornariam num dos mais respeitados, consequentes e inimitáveis poetas da sua geração. Próximo, na contestação à ditadura, ou apenas na aventura, nas fortuitas confluências poéticas, que nesse período juntavam, tertuliando nos cafés da fauna literária de Lisboa, vozes oriundas de quadrantes estético/ideológico diversos, de poetas como Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Cesariny, Alexandre O’Neill e Mendes de Carvalho.

Mas será a partir do livro Insofrimento In Sofrimento (1969), publicado no ano em que adere ao PCP, que a sua voz se autonomiza e adquire um poder, uma vibração, uma consonância, uma coragem temática e verbal, que o irá projectar muito para além das coordenadas, das representações poéticas dos seus comparsas de geração. Desse livro, José Afonso musicará o poema Cidade, incluindo-o no álbum Cantos Novos, Rumos Velhos. Era apenas um sinal, mas significativo, auspicioso começo numa prática que o tornaria num dos mais importantes renovadores e solicitados poetas de cantigas.

1969 é o ano, o tempo da afirmação, o tempo de um poeta vindo do lado esquerdo da noite, utilizar a força, o magnetismo das palavras, para as trazer para a rua, para a voz inquieta, desesperada de um povo sedento de liberdade e de palavras solidárias, rebeldes e provocatórias, que expressassem as suas perplexidades e lhes devolvesse, mesmo no tempo escasso de uma cantiga, o direito à esperança: que agitassem, por breves instantes, as águas pútridas que o regime impunha aos seus quotidianos tolhidos pelo medo, pelas agruras da vida, pela guerra, pela omnipresente presença da PIDE e da bufaria. Era o tempo das palavras das cantigas, da utilização da música popular urbana como arma de arremesso contra a ditadura e desse poderoso meio de comunicação de massas que é a televisão, nomeadamente no Festival da Canção, para difundir as palavras novas carregadas de futuro e de sentidos, espalhando-as pelo país inteiro.

Uma nova geração de cantores e de compositores despontava então, com destaque para Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Tozé Brito, José Luís Tinoco e Nuno Nazareth Fernandes, disposta a subverter os parâmetros estéticos e os conteúdos líricos das cantigas, libertando a música popular do serôdio nacional cançonetismo. Essa música só foi possível e ganhou asas graças ao verbo transgressor, à claridade polifónica das palavras de Ary dos Santos. Era o tempo da Desfolhada Portuguesa, agitando as mentes conservadoras com esse desabrido Quem faz um filho/Fá-lo por gosto; da Menina do Alto da Serra, que cheirava a feno e trazia um ribeiro à cintura; de Tourada onde se dizia, metaforicamente, a verdade resistente desses dias, em que toureávamos ombro a ombro/as feras, porque estávamos na praça da Primavera e íamos pegar o mundo/Pelos cornos da desgraça/E fazermos da tristeza/Graça. E fizemos!

Uma fala feita de raivas

A exaltante e profícua capacidade criativa de Ary dos Santos, na particular vertente das letras para cantigas, que se pautou por mais de seiscentas produções poéticas, atingiria o seu ponto mais alto e significativo com os álbuns Um Homem na Cidade e Um Homem no País, ambos interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Tinoco, Carlos Paredes, Paulo de Carvalho, Tordo, Frederico de Brito e Victorino d’Almeida, entre outros, e com a parceria com o compositor Alain Oulman (também ele militante comunista, autor da música do famoso Fado Peniche), para os álbuns Com que Voz e Cantigas Numa Língua Antiga, gravados por Amália Rodrigues.

José Carlos Ary dos Santos foi uma das vozes que os poderes, os de antanho e os de hoje, que nos tiques censórios, e não só, cada vez mais se lhe assemelham, tentaram silenciar. Eduardo Pitta, num texto publicado no livro «Comenda de Fogo», punha a faca a jeito e apontava-a onde doía, revelando que por parte da crítica instalada existia o silêncio ensurdecedor – aquele que por completo obliterou o poeta das Fotos-Grafias. Nada, portanto, que já não soubéssemos e que ao poeta, ainda em vida, não doesse, exibindo, no entanto, a mágoa/raiva que lhe era peculiar, embora, quando a isso instado, esboçasse um sorriso de criança rebelde, remetendo-nos para os versos do seu poema Queixa e Imprecações dum Condenado à Morte: Por existir me cegam,/Me estrangulam,/Me julgam,/Me condenam,/Me esfacelam./ Por me sonhar em vez de ser me insultam,/Por não dormir me culpam/E me dão o silêncio por carrasco/E a solidão por cela. Poema incluído naquele que é considerado, oficialmente, o seu livro de estreia e um dos mais altos momentos da sua criação literária, um dos mais exaltantes e corajosos testemunhos poéticos inscritos na sua vasta, diversa, se bem que qualitativamente irregular e fragmentada, obra poética: A Liturgia do Sangue (1963). Este livro, fundamental no seu percurso criativo, feito de excessos verbais e imagísticos, de uma assumida teatralidade, com declinações simbolistas e neo-românticas, construído à medida da voz e da sua intensidade emocional e interpretativa, é ainda hoje, volvidos mais de cinco décadas sobre a sua publicação, um raro, estranho objecto literário no conjunto da lírica portuguesa contemporânea; incontornável na sua sinceridade expositiva, nas figuras estilísticas que elabora, que lhe bordejam uma fala feita de raivas mas, igualmente, das prodigiosas ressonâncias que a envolve, de um fulgor próximo do Guerra Junqueiro de A Velhice do Padre Eterno e do sarcasmo de Gomes Leal, e onde, a espaços, adivinhamos o rumor fluído, real e subjectivo, de uma porosidade poética pós-surrealista.

Poesia de afirmação e de combate

Ary dos Santos faz parte desse restrito número de poetas que conseguiram, pela conjugação evocativa dos sinais mais perenes da honra e da justiça, transfigurar e universalizar as vozes extensas das ruas, os clamores que se erguiam do pó, e dar-lhes uma dimensão outra, transmudar em verbo, em versos lapidares, torná-lo a consciência do momento histórico, o movimento impressivo das massas em luta; o poeta recupera e traz para o discurso poético os acontecimentos candentes, e históricos, da Revolução de Abril: a Reforma Agrária, as nacionalizações, as lutas dos trabalhadores, o direito à Terra e ao Trabalho, à Paz e ao Pão. E, de tal forma foi activo participante nas quotidianas lutas do nosso povo, protagonista e interprete dos momentos mais altos da Revolução, que conseguiu elaborar uma nova estética, uma nova arquitectura verbal que, em seu bojo contém, e renova, os conteúdos de uma poesia de afirmação e de combate, próxima do neo-realismo, sobretudo a que foi gerada pelos autores de Notícias do Bloqueio, mas que na sua explosão sintáctica, na sua expressiva oralidade, a torna também companheira de formas poéticas populares, sobretudo nas criações que fez para o teatro de revista.

A palavra poética de Ary dos Santos, a dinâmica, o tórrido verbal que a configura, assume não só um lugar de extrema resistência, para utilizar uma expressão feliz de Eduardo Lourenço, mas de esconjuro contra manobras reaccionárias de toda a índole: Agora ninguém mais cerra/as portas que Abril abriu.

José Carlos Ary dos Santos foi sempre um poeta de pé, de coragem, de afrontamento. De causas. Excessivo e claro, generoso até ao osso, sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa.

Ary foi, como o afirmou Natália Correia, «um dinamizador da matéria poética», sabia que o poema é uma janela aberta aos horizontes, um caminho a desbravar, um instrumento mais para erguer a voz e cantar a justiça e a paz, para ajudar Abril a caminhar, acreditando que O que é preciso é termos confiança/se fizermos de Maio a nossa lança/isto vai meus amigos isto vai.

Mesmo no rumor fundo do silêncio, da submissão e do conformismo, as palavras de José Carlos Ary dos Santos continuarão a estar vivas, a ressoar como um alerta aos nossos ouvidos despertos, a caminhar ao nosso lado. Dado que, por muito que o tentem calar, um poeta Nunca canta sozinho e, mesmo morto, a sua voz ecoará no descampado, viverá nas palavras que dele herdámos e são parte da voz que temos, da nossa voz que afirma sem temer que das entranhas da terra hão-de passar/o tempo da humana gestação/e parir como um rio a rebentar/o corpo imenso da Revolução.

1 Poema A Um Jovem Soldado




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