A fraternidade era parte central e indissociável das suas convicções e prática
Justa homenagem a José Vitoriano um revolucionário de corpo inteiro

PCP José Vitoriano, destacado dirigente comunista antes, durante e depois da Revolução de Abril de 1974, foi anteontem lembrado pelo seu Partido de sempre com uma sessão na Casa do Alentejo, em Lisboa.

Uma sala a rebentar pelas costuras, cheia de camaradas, amigos e familiares. Um vídeo exibido com o testemunho do próprio sobre o seu ingresso no PCP, o «mergulho» na luta clandestina, as prisões e Abril. O anuncio da edição, pela Avante!, de um livro com textos inéditos do próprio, (bem) intitulado «Um comunista sorri à luta». Um momento musical de rara qualidade protagonizado pelo Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dirigido pela maestrina Erica Mandillo e acompanhado ao piano por João Lima. Uma intervenção política feita pelo Secretário-geral do seu Partido de sempre e no qual assumiu as mais elevadas responsabilidades com desassombro e despretensiosismo.

De tudo isto se fez a justa homenagem a José Vitoriano, promovida pelo PCP ao final da tarde de terça-feira na Casa do Alentejo, em Lisboa, onde se mantém, até ao próximo domingo, 17, uma exposição evocativa deste militante empenhado e destacado dirigente comunista.

O pretexto da homenagem foi o centenário do nascimento de José Vitoriano, que se assinala no próximo dia 30 de Dezembro. No entanto, o exemplo do «revolucionário de corpo inteiro, abnegado e firme» que foi José Vitoriano, como destacou Jerónimo de Sousa, resiste ao tempo, e, por isso, perdurará por muitos anos na luta dos comunistas pela «construção dessa terra sem amos, livre de todas as formas de exploração e de opressão que José Vitoriano abraçou e dignificou com uma vida de coerência, dignidade, de entrega desinteressada, neste Partido, com tudo o que ele comporta de aspiração, sonho e projecto», como também referiu o Secretário-geral do PCP.

Vida plena

Na intervenção de encerramento, Jerónimo de Sousa abordou o percurso do comunista que nasceu em Silves, no Algarve, mas cuja entrega à luta clandestina obrigou a ser de muitas terras, sem porém jamais esquecer a sua; do menino pobre que podia ter ficado analfabeto mas que não só se tornou um homem culto, resultado do intenso estudo a que dedicou sempre tempo, como se empenhou na difusão e na acessibilidade ao conhecimento por parte das massas populares; do «operário construído», dirigente sindical e associativo com uma inabalável raiz de classe e ligação aos interesses e aspirações dos trabalhadores e do povo; do dirigente político, agitador e organizador colectivo capaz de múltiplas tarefas, independentemente da sua complexidade, morosidade e perigos, que pagou o alto preço da tortura e de longos anos de prisão mas que nunca cedeu à brutalidade e arbitrariedade fascistas, elevando-se de réu a acusador da ditadura, fazendo de cada lugar, incluindo a cadeia, um posto de combate – tanto mais que a PIDE dele dizia ser de «difícil correcção» e incapaz de «estar quieto onde quer que estivesse».

Referiu-se igualmente ao defensor de Abril, das suas conquistas e realizações, com relevante papel na conquista e consolidação dos direitos dos trabalhadores e da liberdade sindical, e ao deputado rigoroso e tenaz, respeitado por todos. Mas muito justamente, o Secretário-geral do PCP não deixou também de assinalar com especial destaque a «dimensão humanista» de José Vitoriano, «cuja riqueza não cabe em nenhuma biografia que o pretenda definir e caracterizar».

Aqueles que o conheceram ou que com ele se cruzaram, mesmo que brevemente, que sobre ele ouviram relatos e referências, sabem que em José Vitoriano a fraternidade era parte central e indissociável das suas convicções e prática. No vídeo que passou na sessão, aliás, vê-se José Vitoriano a discursar num Congresso do PCP sobre a política de quadros. Pelo que diz e sugere confirma-se a sua extrema atenção, carinho e cuidado no acompanhamento dos seres humanos, particularmente daqueles que optam por se entregarem, sem tréguas, à emancipação dos seus semelhantes.

Porém – e Jerónimo de Sousa lembrou-o com pertinência –, talvez o melhor que se possa dizer sobre a personalidade e vida de José Vitoriano seja recordar que, na comemoração dos seus 80 anos, Álvaro Cunhal afirmou que «se desejasse ser parecido com alguém, desejava ser como o José Vitoriano». E da mesma forma lembrar que José Vitoriano, um dos militantes comunistas que o PCP evoca como tendo pertencido ao núcleo que transformou o Partido numa grande organização nacional, bastião da luta antifascista e reputada internacionalmente, considerava que não tinha inimigos pessoais, mas de classe, nem se movia por sentimentos de ódio ou vingança, mas de apego à liberdade, à democracia, à justiça e ao progresso sociais.




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