• Hugo Janeiro (Texto) Jorge Caria (Fotos)

Uma política de desenvolvimento reclama mais do que medidas avulso
Produzir mais para o País avançar

MOIMENTA DA BEIRA Portugal tem condições para criar mais emprego e riqueza, com reflexos no combate a défices e na promoção da coesão económica e social do território, concluiu-se da visita de Jerónimo de Sousa a Moimenta da Beira, sábado, 13.

Na terra onde a maçã é rainha, a visita do Secretário-geral do Partido permitiu «descascar» potencialidades de desenvolvimento do interior cujo aproveitamento é, mais do que uma possibilidade real, uma exigência para o País. Em Moimenta da Beira situa-se a Cooperativa Agrícola do Távora. Foi lá que começou a jornada.

À espera do dirigente comunista para a visita estavam dezenas de produtores locais, a esmagadora maioria (senão todos) associados daquela organização. Esse foi, aliás, um aspecto sublinhado por Jerónimo de Sousa em declarações no final do périplo: a força e capacitação criadas quando homens e mulheres da lavoura se unem com objectivos comuns, ganhando escala e construindo condições e instrumentos de transformação e venda dos respectivos produtos.

O cicerone da visita foi João Silva. Enérgico, este ex-professor de educação física e actual presidente da Cooperativa evidenciou a objectividade, o dinamismo e a paixão responsáveis pelo crescimento daquela estrutura e pela manutenção da vitalidade do mundo rural adjacente.

Entre instalações e equipamentos mais antigos e outros requalificados ou mesmo novos, João Silva mostrou os ciclos da produção de vinho e de diversos tipos de maçã. A bravo-de-esmolfe, autóctone, é a pérola de polpa e casca.

O Douro Sul, com destaque para Moimenta da Beira, assegura metade da produção de maçã em território nacional. Ainda assim, a satisfação das necessidades impõe a importação de 50 por cento da maçã que se consome em Portugal.

Podia ser de outro modo, concordaram João Silva e Jerónimo de Sousa, com o assentimento dos presentes. O forte investimento que tem vindo a ser feito pela Cooperativa Agrícola do Távora – sobressaindo as câmaras de conservação a frio ou em atmosfera dinâmica, estas últimas permitindo uma conservação mais prolongada e com menos custos, incluindo os ambientais – merecia mais e melhores frutos, particularmente para os produtores.

Persistem porém entraves à expansão do negócio, os quais se podem sintetizar na ausência de políticas centrais que, em vários domínios, promovam preços justos, o aumento da produção e a fixação de população pela criação de emprego, como, aliás, referiu o Secretário-geral do PCP. Lembrou ainda a necessidade de avançar com as barragens nas serras da Nave e da Lapa, essenciais para os pomares e vinhas que conservam a raiz para que o desenvolvimento da região frutifique.

Terras do Demo

Os pecados originais apontados à falta de apoios na produção de maçã repetem-se no que toca à fileira do vinho, lamentou o presidente da Cooperativa que garante mais de 70 postos de trabalho directos e que, «em tantos anos, nunca faltou ao pagamento a ninguém». Além do mais, a Cooperativa Agrícola do Távora «já conseguiu recuperar 600 hectares de vinha», explicou João Silva.

Entre os rios Douro e Dão, a Região Demarcada do Távora-Varosa caracteriza-se por condições edafoclimáticas singulares. A Cooperativa Agrícola é uma das produtoras de vinho local. «Malhadinhas» e «Terras do Demo», títulos de obras literárias de Aquilino Ribeiro, natural de Moimenta da Beira, são também marcas que têm granjeado sucesso e acumulado prestígio, designadamente na gama dos espumantes, existindo oferta de qualidade para palatos mais apreciadores da suavidade como para os que preferem notas mais graníticas.

Contudo, o que tem sobejado em determinação e inovação aos produtores e à sua associação para avançar e crescer, falta em investimentos e estímulos públicos. Bem podiam governos e governantes aprender com o povo serrano e ajudá-lo «na sua labuta para se libertar de todos os grilhões», contribuindo para que estas não continuem a ser as «”Terras do Demo” de que nos falava o nosso ilustre escritor», aludiu Jerónimo de Sousa já no almoço que se seguiu à visita à Cooperativa.

Questão central

Perante cerca de duas centenas de pessoas que encheram o refeitório da Escola Secundária de Moimenta da Beira, o Secretário-geral do PCP interveio reclamando para o Partido um papel central na concretização de medidas de recuperação de direitos e rendimentos nesta nova fase da vida nacional. «Avanços e medidas que só não vão mais longe porque o Governo do PS se mantém amarrado a opções e compromissos que limitam e impedem uma resposta mais substantiva aos problemas estruturais do País», salientou.

Estando no entanto numa zona que é «o espelho de um interior a que hoje podíamos chamar terras do abandono», Jerónimo de Sousa cerrou críticas «à política de direita de sucessivos governos» sobre a matéria.

«É caso para perguntar, aos que hoje estão no Governo e se multiplicam em anúncios de milhões e mais milhões, numa trapalhada monumental em que ninguém se entende ou sabe o que vai acontecer, e aos que, no PSD e CDS, apostados em limpar a sua acção desastrosa, designadamente ao nível da floresta, e em satisfazer os interesses económicos de que são representantes, apresentam propostas atrás de propostas, onde estiveram estes anos todos em que a situação se degradou até ao ponto que hoje ninguém desmente?», disse o Secretário-geral do PCP, antes de reafirmar que «uma política de desenvolvimento do interior, exigindo a ruptura com os constrangimentos da política de direita, reclama, mais do que medidas avulso ou boas palavras, uma política patriótica e de esquerda que assuma a defesa da produção nacional e o apoio à pequena e média agricultura, defenda os serviços públicos e as funções sociais do Estado, garanta os investimentos públicos em infra-estruturas essenciais, mobilize as potencialidades e a gestão adequada dos recursos naturais».

 

A estrada da Beira
e a beira da estrada

Jerónimo de Sousa alertou em Moimenta da Beira para a «campanha das forças do grande capital e dos sectores políticos mais conservadores e reaccionários visando paralisar qualquer acção de valorização das condições de vida do povo e do País». Um dos vectores desenrola-se a respeito do financiamento dos partidos, parte de uma linha mais ampla que visa medir todos os partidos e políticos «pela mesma bitola».

A realidade porém é teimosa e no que toca a financiamento o PCP diferencia-se por defender e ter proposto, ao contrário doutros, que «os partidos não podem ser uma dependência do Estado», sendo, aliás, um exemplo porquanto subsiste graças às contribuições dos seus militantes e amigos, referiu o dirigente comunista.

Mas a forma diferenciada de estar na política e os propósitos de tal postura ressaltam, igualmente, quando os trabalhadores de uma unidade produtiva fazem questão de ficar à espera depois do turno para cumprimentar o Secretário-geral dos comunistas portugueses «porque é aquele que nos defende». Ou quando produtores, presidente da Cooperativa Agrícola do Távora e presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, José Ferreira, eleito pelo PS, reconhecem nos comunistas os que «estão nas horas boas como nas más», que «nunca desistem de lutar» e «encontram-se sempre disponíveis para ajudar» a resolver problemas, conforme foi dito, mais do que uma vez, especialmente referenciando o ex-deputado na República Agostinho Lopes (que até era eleito pelo distrito de Braga).

Como diz o povo, não confundam a estrada da Beira com a beira da estrada. 


Factos e dados

     
  • A Constituição da República Portuguesa (CRP) reconhece a «protecção do sector cooperativo e social de propriedade dos meios de produção» e determina que o Estado atribuí «estímulos ao associativismo dos trabalhadores rurais e dos agricultores, nomeadamente à constituição por eles de cooperativas de produção, de compra, de venda, de transformação e de serviços e ainda de outras formas de exploração por trabalhadores».

  • O Programa do PCP defende «um desenvolvimento económico assente numa economia mista, dinâmica, liberta do domínio dos monopólios, ao serviço do povo e do País». O Partido explicita que pretende «uma economia onde seja incentivada e apoiada a participação activa, interessada e criadora dos trabalhadores e o controlo de gestão, e sejam garantidas as condições necessárias para que os micro, pequenos e médios empresários, os agricultores e os pescadores contribuam com maior eficácia para a produção social». Mais adiante, acrescenta-se que a estratégia de desenvolvimento proposta também assenta num «sector cooperativo e social constituído por cooperativas agrícolas, de produção operária e serviços, de habitação, de consumo, de comercialização, de ensino e de cultura, mútuas, assim como empresas em autogestão e outras», e no que diz respeito à política para a agricultura detalha-se que «a política agrícola e de desenvolvimento rural deverá ter como objectivos centrais o desenvolvimento e a modernização da agricultura portuguesa, a melhoria da vida nos campos, o aumento da produtividade e da produção agrícola, pecuária e florestal, a melhoria do grau de auto-abastecimento de produtos alimentares essenciais, visando garantir a soberania e segurança alimentares, o máximo incremento das produções em que Portugal possa dispor de vantagens comparativas e a manutenção do mundo rural».

  • De acordo com os dados estatísticos mais recentes disponíveis (2012) as cooperativas agrícolas representam 34 por cento do total, movimentando cerca de 54 por cento do volume de negócios anual, estimado em 7,9 mil milhões de euros.





 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: