O serviço público postal
deve caber aos CTT
como empresa pública
Grande jornada deu força <br>à luta pelos CTT públicos

CORREIOS No dia 23, os trabalhadores dos CTT fizeram greve e em Lisboa realizou-se uma manifestação a que se juntaram utentes e eleitos de autarquias locais, todos exigindo a reversão da privatização.

O objectivo da luta, convocada por quatro sindicatos (SNTCT, Sindetelco, Sincor e Sinttav) e pela Comissão de Trabalhadores dos CTT, foi dar mais força a exigências que se têm feito ouvir desde a privatização dos Correios, concluída a 5 de Setembro de 2014. Essas reivindicações ganharam razão com a prática da gestão privada e, mais recentemente, com o «plano de transformação operacional», anunciado pela administração dos CTT pouco antes da greve de 20 e 21 de Dezembro de 2017.

Nessa altura, ficou assumido o objectivo patronal de reduzir mais 800 postos de trabalho e prosseguir o encerramento de estações de Correios, para garantir a entrega de dividendos aos accionistas.

As exigências dos trabalhadores e das suas organizações representativas são dirigidas ao Governo, para que – como se indica na resolução aclamada, pouco antes das 17h30, na concentração realizada nas proximidades da residência oficial do primeiro-ministro – tome «medidas urgentes e eficazes» em três direcções:
acabar com a degradação do serviço público e universal de correios;
acabar com os despedimentos anunciados;
acabar com o encerramento de estações de Correios e reabrir as que já foram encerradas.

«Compete ao Governo agir rapidamente para que os CTT voltem à esfera pública» e «é urgente a reversão da privatização dos CTT», conclui o documento, lido aos mais de 3500 manifestantes pelo Secretário-geral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações, Victor Narciso, em nome da CT e dos quatro sindicatos.

Esta mensagem tinha transparecido nas palavras de ordem gritadas desde o Marquês de Pombal, num percurso de quase hora e meia, por trabalhadores no activo e reformados, eleitos de freguesias e municípios e moradores-utentes, vindos de praticamente todos os distritos do Continente. Notámos faixas a identificar, por exemplo, Guarda, Norte Alentejano, Vale do Ave, Coimbra, Amial, Camarate, Paio Pires. «Encerrar estações é roubar populações», «A privatização é um roubo à população», «A luta continua, nos Correios e na rua», «Contra a destruição é urgente a reversão» e «Serviço público – sim, privatização – não» foram algumas das frases mais repetidas.

Aprovada a resolução, que no final seria entregue ao cuidado do primeiro-ministro por uma delegação, foi dada a palavra a Rui Monteiro, dirigente do MUSP (Movimento de Utentes dos Serviços Públicos), que saudou a greve dos trabalhadores, considerando que «esta é a nossa e a vossa luta». Notou que o Governo «foi eleito para reverter um ataque brutal, mas no que toca aos serviços públicos está quase tudo por fazer».

O presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira, fez uma breve saudação, em nome dos eleitos locais que participaram «nesta manifestação da população», «para que o Governo e o primeiro-ministro ouçam» os argumentos a favor do controlo público dos CTT.

Na manifestação integrou-se também o Secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, acompanhado de outros dirigentes da central.

O nível de adesão à greve de 24 horas nas empresas do Grupo CTT foi estimado acima de dois terços dos trabalhadores pelo SNTCT. Numa nota com dados recolhidos até ao meio dia, o sindicato da Fectrans/CGTP-IN considerou a greve «bem participada», condenando as «pressões» a que os trabalhadores foram sujeitos para impedir que aderissem à luta.

Para a célula do PCP nos CTT (Organização Regional de Lisboa do Partido), esta foi uma «grande jornada de luta em defesa do serviço público postal, dos CTT e dos seus trabalhadores». Num comunicado em distribuição desde segunda-feira, afirma-se que «graças à luta dos trabalhadores dos CTT, é hoje cada vez mais claro para cada vez mais gente que é fundamental retomar o controlo público dos CTT», salientando que esta é «uma luta que deve continuar».

 

PCP contra «atentado»

«O que está a acontecer nos CTT é um atentado contra o interesse nacional, contra os trabalhadores, contra as populações, contra o interesse público», e «merecia outra posição por parte do PSD, do CDS e do próprio PS», considerou o Secretário-geral do PCP.

Jerónimo de Sousa saudou os manifestantes, à frente de uma delegação do Partido de que fizeram parte Armindo Miranda (da Comissão Política do Comité Central), Manuela Pinto Ângelo (do Secretariado do CC), João Ferreira (do CC, deputado no Parlamento Europeu e vereador da CM Lisboa), Bruno Dias (do CC e deputado na AR) e Rita Rato (deputada na AR).

Em declarações aos jornalistas, o dirigente comunista reafirmou que «têm razão, os trabalhadores e os utentes dos CTT». Para responder ao «problema de fundo» que é «a necessidade de salvar os CTT, tendo em conta o interesse público, o interesse nacional e o interesse dos trabalhadores e das populações», o PCP apresentou na AR um projecto de lei, votado no dia 22, e também por essa razão «estamos aqui, manifestando solidariedade».

Quanto a PSD, CDS e PS, «procuram lavar as mãos da responsabilidade que tiveram na privatização e no agravamento da situação, não ouvindo os trabalhadores, muitos deles ameaçados de despedimento, nem ouvindo as populações, particularmente as mais fragilizadas – as do Interior, mas também os mais pobres, os reformados e pensionistas – que vêem os serviços degradarem-se, as suas reformas a chegarem-lhes às mãos atrasadas», disse Jerónimo de Sousa.

«O Estado não pode prescindir da empresa CTT para garantir o serviço público postal», sendo «inconcebível qualquer opção de entregar essa incumbência a outro grupo económico privado», defende-se no projecto de lei do PCP que visou estabelecer o regime de recuperação do controlo público dos CTT, entendendo como tal «a recuperação integral pelo Estado da propriedade dos CTT, independentemente da forma jurídica que venha a assumir». O diploma foi reprovado pelos votos de PSD, CDS e PS.

 



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