• Fernanda Mateus

Manifestação Nacional de Mulheres, no próximo sábado,10
Nós manifestamo-nos!

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Sim! Há fortes razões que justificam que nas comemorações do Dia Internacional da Mulher se assuma a palavra de ordem: Eu, tu, ela(s) manifestam-se. Nós manifestamo-nos para que estas comemorações tornem visível a determinação das mulheres na exigência de uma verdadeira política de igualdade que rompa com as causas estruturantes das desigualdades e discriminações e concretize os direitos das mulheres na lei e na vida. Uma luta das mulheres por direitos próprios, cujo êxito está associado à luta por um Portugal mais justo, de progresso e soberano.
As comemorações terão expressão muito concreta nas empresas e locais de trabalho na Semana da Igualdade, promovida pelos sindicatos e pela CGTP-IN. Uma luta que continuará e que exige o reforço da organização sindical e da unidade dos trabalhadores na defesa de melhores salários, contra as discriminações salariais, da precariedade laboral, contra a desregulação dos horários de trabalho, na defesa da contratação colectiva e pela revogação das normas gravosas do código laboral.
Igualmente, têm lugar debates, jantares, espectáculos por todo o País realizados pelo MDM e outras organizações sociais que comemoram esta data, não na base de apelos superficiais para «um dia de fuga» aos problemas de todos os dias, mas como espaços de afirmação do valor da luta das mulheres pelos seus direitos.
Ponto alto da afirmação da luta organizada das mulheres será a realização da Manifestação Nacional de Mulheres, no próximo sábado, promovida pelo Movimento Democrático de Mulheres, em Lisboa. Subordinada ao lema «Igualdade e Justiça Social, no presente e com futuro», esta manifestação terá no apoio de muitas milhares de mulheres uma clara afirmação de que não contam com elas na tentativa de isolar a sua luta por direitos pró- prios da luta que a todos envolve por um Portugal mais justo e soberano.

A força de uma data
na luta emancipadora das Mulheres


A proclamação do Dia Internacional da Mulher tem uma origem histórica: o objectivo de organizar em cada ano, em todo o mundo, um dia no qual as mulheres deveriam manifestar-se pela emancipação das proletárias e pelo sufrágio universal.1
A proposta de Clara Zetkin apresentada na 2.ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas (Agosto/1910) não foi um acto isolado, antes consubstanciou a preocupação de dinamizar as bases organizativas da luta das trabalhadoras, numa época em que, nos países industrializados, as mulheres entravam em grande número no trabalho assalariado e emergiam como parte activa nas lutas do movimento operário contra os salários de miséria e as prolongadas jornadas de trabalho que pesavam sobre mulheres, homens e crianças. A proposta era de um dia especial, que emergia da luta das mulheres de todos os dias contra a exploração a que eram sujeitas e que visava rasgar novos horizontes numa luta organizada que conduzisse ao êxito das suas mais profundas aspirações de emancipação social.
Recorda-se que a primeira comemoração desta data foi em 19 de Março de 1911, mobilizando mais de um milhão de mulheres em diversos países. No ano seguinte, as proibições em algumas cidades europeias colocaram em causa estas comemorações.
Em 1913, na Rússia czarista, o Dia Internacio-nal da Mulher (8 de Março), dinamizado pelas mulheres do Partido Bolchevique, foi celebrado pela primeira vez em Moscovo. Na Europa, em 1915 e 1916, em plena guerra e com a repressão policial em quase todos os países, tornou-se quase impossível qualquer celebração.
Nos anos anteriores à II Guerra Mundial foram sendo fundadas em todo o mundo várias organizações de mulheres que, em conjunto com as organizações sindicais, deram início às celebrações do Dia Internacional da Mulher. Este dia foi, em muitas ocasiões, um momento simbólico em que as mulheres associaram o êxito da sua luta por direitos próprios ao combate ao fascismo, contra a guerra e por um mundo de paz.
Em Portugal, a comemoração desta data foi proibida pela ditadura fascista. É o jornal Avante! que a partir de 1953 faz referência a esta data e à importância de ser assinalada pelas mulheres portuguesas. É o MDM, enquanto organização de mulheres, que dá um forte impulso a esta comemoração a partir de 1969.
Importa ainda assinalar que entre a data de proclamação do Dia Internacional da Mulher (1910) e a sua institucionalização formal pela ONU decorreram 67 anos, um longo período de tempo em que a actuação das mulheres e das suas organizações e a luta que travaram pela conquista de direitos foi determinante para que o 8 de Março se constituísse num dia de luta reivindicativa pelos direitos económicos, sociais e políticos das mulheres, pela sua emancipação, contra a guerra e pela paz. Esta data perdura até aos dias de hoje como uma importante afirmação da luta emancipadora das mulheres.
Analisando os conteúdos que presidem às comemorações deste ano por parte de algumas entidades, no plano internacional e nacional, regista-se a tentativa de levar a luta das mulheres para «becos sem saída», já que os seus conteúdos estão distantes dos seus reais problemas e as formas de luta propostas pretendem funcionar como meras «válvulas de escape» para manter inalteráveis os mecanismos de exploração e violência sobre as mulheres.
A resposta que é necessário dar, é dar con-  fiança de que a comemoração do 8 de Março, no presente e no futuro deverá continuar centrada no objectivo de defesa dos seus direitos e na sua emancipação social.

1 Clara Zetkin e a luta das mulheres, uma atitude inconformada, um percurso coerente,
Edições Avante, página 51

 



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