• Jaime Toga
    Membro da Comissão Política

Armando de Castro combateu os que queriam arrumar o marxismo no passado
Armando de Castro: um legado que perdura

Faz este ano 100 anos que nasceu Armando de Castro. Economista, marxista, advogado, investigador, professor, resistente antifascista e comunista, Armando Castro deixou uma vasta obra publicada, com centenas de trabalhos nos domínios da História, Economia Teórica e Aplicada e Teoria do Conhecimento. Um dos grandes vultos da ciência e do pensamento económico em Portugal.

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Intelectual de referência, foi um grande lutador antifascista, corajoso e sempre solidário, e militante comunista desde a década de 30 do século passado, destacando-se como um revolucionário coerente até à data da sua morte, em Junho de 1999, com 80 anos de idade. Homem da ciência e da cultura, cidadão exemplar, foi perseguido e censurado pelo fascismo, o que não impediu que em 1965 lhe fosse atribuído, pela Sociedade Portuguesa de Escritores, o Grande Prémio Nacional de Ensaio. Afastado do ensino oficial durante mais de 30 anos, Armando de Castro recorreu ao exercício da advocacia para subsistir e prosseguir com os seus trabalhos de investigação.

Mesmo que o próprio tenha considerado o seu percurso como advogado um recurso para subsistir perante o impedimento de leccionar que lhe foi imposto pelo fascismo, assumiu uma clara opção de classe na sua intervenção como advogado. Nessa qualidade, integrou o grupo de destacados advogados que enfrentou os tribunais fascistas na defesa de 52 jovens do MUD Juvenil (1955/1957) e colaborou com os sindicatos dos Metalúrgicos do Porto e dos Bancários do Norte na emissão de pareceres.

Coerente, consequente, solidário e corajoso, Armando de Castro assumiu papel activo na luta contra o fascismo e em defesa da liberdade e da democracia. Recebeu uma homenagem de um conjunto de destacados democratas, em 1965. Integrou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e as listas da Comissão Democrática do Porto às «Eleições» de 1969. Participou nos três congressos da Oposição Democrática, em Aveiro, apresentando Teses sobre «A Democracia como Necessidade de Sobrevivência Nacional», em 1957; «Contribuição para a Definição da Problemática Económico-Social Contemporânea do Povo Português», em 1969; e «Para uma Leitura Teórica dos Condicionalismos Socio-Económicos da Acção Democrática», em 1973.

Após a Revolução, viu reconhecido o seu trabalho no plano académico e institucional. Foi convidado para professor e director da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

Militância
permanente e coerente

A profunda actividade de investigação e produção intelectual nunca foi obstáculo para a sua participação política e militância no PCP. Participou activamente na vida partidária, especialmente após a Revolução de Abril, integrou a direcção do Sector Intelectual do Porto, logo na sua primeira Assembleia, participou e interveio em comícios, sessões de solidariedade internacionalista e campanhas eleitorais.

Se é verdade que, com a sua morte, o País perdeu um português e homem de cultura com uma enorme grandeza intelectual e humana, o património da sua vida e da sua obra continuam a inspirar todos quantos se batem pelo progresso da ciência e da cultura e pela sua estreita vinculação com o progresso social e humano.

Sendo Armando de Castro, incontestavelmente, um dos grandes vultos da ciência e do pensamento económico português, um marxista de referência com vasta obra publicada, cabe questionar: porque é que a sua obra não é mais estudada e mais divulgada?

A resposta torna-se fácil se tivermos em conta que, como economista marxista e militante comunista, Armando de Castro sempre foi coerente e determinado. Recusou e combateu aqueles que procuravam arrumar Marx e o marxismo num passado distante e impraticável.

Assumiu com orgulho a qualidade de militante do PCP. Como o próprio afirmou em entrevista à Vértice, publicada em 1988, «a minha qualidade de militante não prejudicou em nada a minha actividade intelectual. Pelo contrário, deu-me o sentido da responsabilidade moral, que isoladamente não teria… [a militância] é um princípio de afirmação, de libertação da consciência e do sentido de intervenção social; essa militância que vem de há 50 anos deu-me essa lição irrenunciável.»

Com a feliz coincidência de assinalarmos o II Centenário do nascimento de Karl Marx precisamente no ano em que perfaz 100 anos do nascimento de Armando de Castro, lembrar e divulgar o percurso e, essencialmente, a obra de Armando de Castro é um dever.




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