• Correia da Fonseca

O inventivo Feliciano

Ávida e insaciável perante escandaleiras efectivas ou supostas, a televisão portuguesa substituiu o chamado Caso Benfica pelo Caso Barreiras Duarte. Como generalizadamente ficou a saber-se, Feliciano Barreiras Duarte, deputado do PSD, fez prova pública de imaginação ao adicionar ao seu currículo, que lhe terá parecido pobre, inventadas qualificações universitárias que o enriqueceriam, e complementarmente promoveu à condição de sua residência o endereço dos senhores seus pais, o que lhe permitiu embolsar mais uns patacos a título de despesas de deslocação a saírem dos bolsos dos cidadãos contribuintes, como é normal e muito em uso. Acontece, porém, que Barreiras Duarte é Feliciano, sim, mas não é muito feliz, e a escassez da sua felicidade permitiu que lhe fosse descoberta a careca, com perdão desta expressão demasiado popular e inadequadamente usada a propósito de quem é deputado da República independentemente de ter cometido umas transgressões. O mais relevante, porém, é que Feliciano Barreiras Duarte havia sido nomeado poucos dias antes pelo recém-eleito Rui Rio para o lugar de secretário-geral do Partido Social Democrata, o PPD/PSD do vocabulário pessoal de Santana Lopes. Para avaliação da importância dessa função convirá saber que o próprio Rui Rio a exerceu há uns anos e, assim, é fácil concluir que as capacidades imaginativas de Feliciano não convêm nada à imagem pública da ainda muito fresca liderança partidária do novo presidente do partido. É claro que dotes de imaginação são em princípio desejáveis em qualquer organização mas, como em tudo, convém não exagerar, bem se podendo dizer que Feliciano Barreiras Duarte exagerou.

Além da vidinha

Porém, para os cidadãos que se interessam pelo prestígio da vida democrática o excesso inventivo de Feliciano Barreiras Duarte é um caso deplorável. Sabe-se que a Assembleia da República e a generalidade dos deputados estão longe de disfrutar de enorme simpatia popular, e também que esse facto tem raízes na surda mas continuada hostilidade que alguns media, televisão incluída, lhe dedicam. Neste quadro, parece claro que a cedência de Feliciano perante as duas tentações agora conhecidas, a de ornamentar o seu currículo e a de reforçar o abastecimento da sua tesouraria, vêm acrescer o municiamento de todas as tendências antiparlamentares. É óbvio que as intenções de Barreiras não iam tão longe, decerto ele julgava estar apenas a tratar da vidinha. Acontece, porém, que as coisas são o que são: neste caso, a realidade é que a AR e os deputados estão permanentemente sob suspeita na vigilância da comunicação social e de grande parte da chamada opinião pública. Feliciano ignorou este dado, achou que podia governar-se um pouco além dos justos limites. Acabou por causar dano a um pilar da nossa democracia. Que nos custou a ganhar.




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