• Fernanda Mateus

Divisão entre vítimas da exploração favorece objectivos do capital
8 de Março – entre «becos sem saída» e a luta emancipadora das mulheres

INDIGNAÇÃO É cada vez mais evidente que o grande capital e as forças políticas e sociais que o apoiam, ou com ele convergem, temem que o protesto, a indignação e o sentimento de injustiça de milhões de mulheres sejam canalizados para fortalecer e ampliar a sua luta organizada em cada país contra as desigualdades, discriminações e violências que as atingem, afrontando com determinação as verdadeiras causas e responsáveis da sua situação.

Porque temem a força dessa luta já não lhes basta reprimi--la, ignorá-la, deturpar os seus objectivos ou fazer proliferar rótulos depreciativos para com as organizações políticas e sociais que não abdicam da coerência e rigor na luta para dar êxito à concretização da igualdade em todas as esferas da vida.
Assim, têm vindo a criar a sua própria agenda política – patente nas instâncias europeias e internacionais a quem os governos se subordinam –, que se caracteriza pela não consideração do contexto global da exploração e opressão inerente à natureza do capitalismo, procurando fragmentar e descontextualizar aspectos da realidade que afecta as mulheres, de que são exemplo as discriminações salariais, a conciliação entre a vida profissional e pessoal, a violência doméstica, os tempos das mulheres com as tarefas domésticas, ou a participação das mulheres nos órgãos de poder político. A que acresce a valorização de aspectos como a participação de mulheres nos conselhos de administração das empresas, como se a decisão de um conselho de administração com maioria de mulheres, sobre desregulação de horários, condicionamento ou redução de salários, fosse, por esse facto, mais aceitável para as trabalhadoras da respectiva empresa. Uma agenda, cujos conteúdos visam criar a ilusão de que tudo pode mudar quando na verdade pretendem que aquilo que é estrutural se mantenha inalterável.
Regista-se um crescente favorecimento e projecção mediática das forças sociais e políticas que convergem com esta agenda política e que promovem acções e objectivos centrados no combate à «dominação masculina» erigida como a causa das desigualdades e discriminações das mulheres, fomentando artificiais conflitos entre mulheres e homens resultantes de supostos interesses antagónicos que determinariam a divisão entre o género feminino e masculino, transformando--a no centro da conflitualidade nas sociedades. Uma estratégia de divisão entre homens e mulheres vítimas da exploração que, enfraquecendo a sua unidade – base da força indispensável para resistirem e vencerem – serve para favorecer os objectivos do grande capital.

Entre a ilusão e a luta


As acções e os objectivos que dão suporte a essa estratégia são largamente mediatizados, erigidos a formas modernas e até radicais de intervenção, apresentados de forma sedutora e capazes de dar êxito à luta das mulheres e largamente valorizados os seus porta- -vozes. São, por isso, crescentemente favorecidos pelos centros de decisão do grande capital e pelas forças políticas que os representam porque funcionam como «amortecedores sociais», aparentando dar expressão às razões de protesto e indignação de importantes sectores de mulheres mas visando remeter a luta das mulheres para «becos sem saída».  
São disso exemplo a tentativa de forjar uma identidade feminina, um grupo social com discriminações e desigualdades que a todas atingem de igual modo. Nada mais falso. As mulheres das classes trabalhadoras e populares não têm os mesmos problemas, nem as mesmas reivindicações das mulheres das classes dominantes. As mulheres têm problemas comuns aos dos homens da sua classe social. As discriminações específicas das mulheres no trabalho são instrumento usado pelo grande capital, com a cumplicidade dos governos ao seu serviço, para aumentar a exploração de todos. De igual modo que a situação destas mulheres no que concerne à conciliação da vida familiar, profissional e social é bem diferente das mulheres das classes dominantes.
É um «beco sem saída» pretender responsabilizar a «dominação masculina» e as relações patriarcais pela opressão, exploração e violência exercida sobre as mulheres e centrar nas questões culturais e nas representações sociais as causas das desigualdades e discriminações das mulheres. A verdade é que estas são produto da natureza de classe de quem detém o poder, são o resultado de uma organização social assente numa sociedade dividida em classes sociais antagónicas, no poder do mais forte sobre o mais fraco e na subalternização do papel das mulheres na sociedade. As questões culturais e das representações sociais não são neutras, são instrumentos ao serviço da natureza exploradora do sistema capitalista. Este apropriou-se dos mecanismos milenares da opressão das mulheres, e usa os inerentes à sua própria natureza exploradora e opressora.
A designada «igualdade de género» serve os objectivos das classes dominantes, porque para elas é suficiente que a igualdade esteja consagrada na lei, sem que tenha tradução na vida quotidiana das mulheres, sendo cúmplice com o permanente incumprimento da lei. Para as mulheres das classes trabalhadoras e populares a igualdade de género não contribui para a necessária transformação da sua condição social e para a sua emancipação. Já para as mulheres das classes dominantes a igualdade de género responde à sua ambição de exercer o poder em pé de igualdade com os homens da sua classe, seja na administração dos seus bens, nas administrações das empresas, ou em órgãos de representação política. As suas decisões nesses órgãos são determinadas, não pelo sexo, mas pela natureza de classe de quem o exerce.   
Sem cedências
É um «beco sem saída» pretender isolar a luta das mulheres da luta contra a persistência das desigualdades e discriminações, fruto da política de direita de  sucessivos governos do PS, PSD e CDS. Como não serão eliminadas as suas causas estruturantes mantendo as opções de fundo do Governo PS, que continua amarrado a políticas contrárias aos interesses nacionais, de submissão ao grande capital e às orientações da União Europeia.  
Nas comemorações do 8 de Março verificou-se o esforço mediático dado a certo tipo de acções no plano internacional, procurando esconder a sua dimensão mundial e diversificada e desvalorizar a dimensão política desta data em Portugal. O certo é que foram realizadas centenas de iniciativas por todo o País, envolvendo milhares de mulheres, por iniciativa do MDM, da CGTP, sindicatos, entre outros, culminado com a realização da Manifestação Nacional de Mulheres, promovida pelo MDM. Manifestação que teve a adesão de milhares de mulheres, afirmando-se como uma poderosa acção de massas, em que as mulheres mostraram a sua confiança nos caminhos a prosseguir na luta pela resolução dos seus problemas concretos e imediatos, tendo como horizonte mais largo a luta pela sua emancipação social. Estas comemorações assumiram um profundo alcance social, elevando a luta pela igualdade a uma nova dimensão, não cedendo aos objectivos dos que pretendiam levar a luta das mulheres para «becos sem saída». Uma luta que conta com o PCP sempre!

 



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