• Correia da Fonseca

Homenagem a Foster Dulles?

Parece natural, pelo menos a quem os olha de longe, que os chamados «casos de espionagem» venham acompanhados de algum mistério. Também é assim com o caso de Serge Skripal, o espião duplo que a televisão e outros media designam como «espião russo», decerto por ter nascido na Rússia, mas de facto servia a dois senhores, digamos assim, o que é sempre perigoso e se arrisca a dar mau resultado. Deu-o também neste caso e, como bem se sabe, Serge foi alvo de um ataque com um veneno de nome esquisito, o Novichok, fabricável na Rússia (o que a TV tem referido muito) e parece que também em França (o que a TV tem referido pouco ou nada). Em consequência, Serge Skripal e a sua filha, que estava com ele, passaram mal durante uns dias mas já estão em vias de restabelecimento, informação esta em que a televisão não tem insistido muito talvez por lhe faltar o índice de dramatismo que ela, a TV, sempre prefere. O que é mais importante, porém, é que perante o envenenamento de Serge Skripal, a quem talvez devesse alguns favores em matéria de informações prestadas, a senhora primeira-ministra britânica, Theresa May, desatou a rugir como o mítico leão britânico e depressa foi acompanhada por rugidos ou apenas rosnidos a condizer vindos de vários lugares do mundo ocidental. A avaliar pelo que se ouviu, o pecado havia sido mais grave porque cometido com um veneno internacionalmente proibido; se o tivesse sido com uma vulgar metralhadora automática a celeuma teria sido muito menor.

A regra e as excepções

Seguiu-se a fase mais original do processo: porventura para reforço da responsabilização da Rússia pela morte de Skripal perante a opinião pública e apesar da manifesta ausência de provas que confirmassem a acusação, uma chusma de democráticos e muito pacíficos países ocidentais desataram a expulsar magotes de diplomatas russos como quem expulsa delinquentes perigosos. Por seu lado, a Rússia retorquiu como as circunstâncias exigiam, passou a fazer expulsões mais ou menos simétricas, e é óbvio que depressa se chegou a uma situação internacional não apenas tendencialmente perigosa, por estarem cortadas as vias habituais de diálogo, mas também desafiante, porque ocorrida sobre uma espécie de ruído de fundo hostil. Como muitas vozes então disseram, foi assim criado um ambiente que parecia um regresso à Guerra Fria de assustadoras lembranças para milhões: nesses anos de perigosas tensões, o secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, prosseguia o que foi chamado de «política à beira do abismo», sendo que o abismo seria então um conflito nuclear. Dir-se-ia agora que o coral de invectivas e de provocações concretizadas pelas expulsões de diplomatas quiseram ser uma homenagem a Dulles e ao seu belicismo. E é claro que as excepções a essa aparente intenção só podem suscitar concordância.

 



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