- Edição Nº2314  -  5-4-2018

Aida Magro, uma vida de cabeça levantada

EVOCAÇÃO Nascida em Angola há um século, Aida Magro enfrentou com coragem as mais duras privações da luta contra o fascismo: a clandestinidade, a prisão, a separação do companheiro e da filha.

Não há palavras que consigam descrever cabalmente a dureza da vida dos funcionários clandestinos do PCP na longa luta contra o fascismo. Para lá dos feitos heróicos, dignos de epopeia cinematográfica – como as greves e manifestações, as fugas da prisão, a coragem face à tortura –, havia o dia-a-dia duro, as escassas refeições, a constante sensação de risco, o corte com a família e os amigos, a separação dos companheiros e dos filhos. Um heroísmo silencioso e discreto, mas não menos real.

Como muitos outros comunistas, homens e mulheres, Aida Magro passou por todas estas provas. Com admirável coragem.

Aida de Freitas Loureiro – o apelido Magro vem do casamento com o dirigente comunista José Magro, amigo de infância – nasceu em Angola a 4 de Abril de 1918. O seu pai, de sólida formação progressista, sofreu diversos desterros por desavenças com o governador da colónia. À filha deixou, entre outras recordações, uma profunda admiração pelos africanos e a convicção de que a independência de Angola, mais cedo do que tarde, seria uma realidade. Numa entrevista a Gina de Freitas (A Força Ignorada das Companheiras, Plátano Editora) Aida Magro recorda a vinda para Lisboa, aos 15 anos: como [o pai] desejava educar as filhas para que um dia não ficassem dependentes de qualquer homem, pediu a reforma e a família regressou definitivamente a Lisboa.»

Uma vez na Metrópole, inscreve-se no Instituto Industrial de Lisboa, formando-se como agente técnica de Engenharia Química. O regresso a Portugal reaproxima-a de José, com quem acaba por se casar.

A luta, o Partido
e a clandestinidade

Aida Magro aderiu ao Partido em 1942, dois anos depois de José Magro. Nesse momento, praticamente toda a Europa estava submetida ao nazi-fascismo, que não tinha ainda sofrido as grandes derrotas na Frente Oriental: o império dos mil anos prometido por Hitler era ainda, aos olhos de muitos, a mais realista perspectiva de futuro. A adesão ao Partido foi, nesta conjuntura, uma ousadia.

As primeiras tarefas desempenhadas por Aida Magro foram a angariação de alimentos para os militantes do Partido que se encontravam na clandestinidade (em tempos de grandes dificuldades devido ao racionamento), no movimento que procurava reunir mulheres e elevar o seu nível cultural e participação social. Em termos estritamente partidários integrava o Organismo de Mulheres do PCP e a frente da Solidariedade.

Em 1945, perante a iminência da prisão de José Magro, o casal mergulha na clandestinidade com a filha de meses. Ele foi primeiro, em Março; Aida e a criança seguiram-no pouco depois. Começava aí um período particularmente duro da vida de Aida Magro, marcado pelas enormes privações, a separação da filha, a prisão do marido e, depois, a sua própria. Se muitas vezes as suas refeições se limitaram a «duas batatas cozidas com uma folha de alface», várias ocasiões houve em que nem sequer comeu, de modo a que o companheiro (que chegava a caminhar muitos quilómetros por dia) o pudesse fazer, assim como a filha.

Particularmente dolorosa foi a separação da criança, que foi viver com os avós: «eu tinha o direito de me sacrificar por uma luta que considerava justa, mas não tinha o direito de sacrificar a minha filha tornando-a uma criança débil». A segunda separação, anos depois, marcou profundamente mãe e filha.

Os seis anos entre a prisão do companheiro, em 1951, e a sua, foram também muito duros. Na já citada entrevista lembra: «não tinha filha, não tinha marido, estava sozinha.» Quando a PIDE a prendeu em casa, com arquivos, materiais de propaganda e estudos comprometedores, controlava a Zona Oriental de Lisboa, à época a área industrial mais importante da capital.

Legalidade e liberdade

Aida Magro foi libertada em Fevereiro de 1963, com três anos de residência fixa e apresentação mensal na PIDE. A vigilância permanente de que era alvo – «a minha vida foi dissecada momento a momento», recordaria mais tarde – e a longa prisão do marido (a última delas de 1962 até ao 25 de Abril) não a impediram de prosseguir a luta contra o fascismo, já não na clandestinidade, mas em acções legais e semi-legais.

Nestes anos, até ao 25 de Abril, empenha-se na luta pela melhoria das condições nas cadeias e a libertação dos presos políticos. Colaborou com a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e levou longe a exigência de amnistia. Em 1969 intervém no segundo Congresso Republicano de Aveiro, em nome de um grupo de famílias de presos políticos, e em 1973 leva a luta pela amnistia a cidades europeias como Genebra, Paris, Bruxelas, Londres e Roma.

Com a Revolução de Abril, Aida Magro regressa ao quadro de funcionários do Partido, colocando toda a sua firmeza e experiência ao serviço da sua transformação num grande partido de massas. Integra a Direcção da Organização Regional de Lisboa e desempenha tarefas na sede central, até se reformar, em 1984. Faleceu em finais de 2011.

 

Coragem face à repressão

Como sucedia a qualquer quadro do Partido nesses anos de chumbo da resistência antifascista, o confronto com a repressão foi uma prova decisiva que também Aida Magro teve que enfrentar. Com tantas outras, antes e depois, passou-a «com honra, recusando-se a passar declarações à polícia», como lembrou Domingos Abrantes no discurso que proferiu no seu funeral, em Novembro de 2011.

Interrogatórios sucessivos, isolamento prolongado, incitamentos à traição e castigos marcaram o período em que Aida Magro esteve presa – seis anos e não os dois e meio a que fora condenada. Na obra «Mulheres Portuguesas na Resistência», de Rose Nery Nobre de Melo, Aida Magro recorda os tempos da prisão: «Castigos, eram aos montes. Por tudo e por nada castigavam os presos. Era necessário que eles sofressem, era necessário que sentissem bem na carne o que era a prisão, era necessário destruí-los.» Particularmente cruel foi o que lhe fizeram em Caxias: «estivemos [ela e o José Magro] dois anos e meio na mesma cadeia, ele no andar de baixo e eu no andar de cima, e então aí eles actuaram de maneira absolutamente sádica, fazendo sentir que marido e mulher não se poderiam encontrar. Foi uma luta para nos conseguirmos escrever.»

Sempre activa na denúncia das más condições prisionais, na luta pela melhoria dos ranchos ou dos serviços médicos e no apoio aos companheiros presos, Aida Magro sofreu castigos sucessivos: «nunca me furtei a dar o peito no combate diário pela conquista de melhores condições de vida carcerária. E estou contente por tê-lo feito. Acabávamos, mais tarde ou mais cedo, por consegui-las.»