• Correia da Fonseca

Toxicidades

Antes do mais, o cumprimento de um dever e um pedido de desculpa: na passada semana esta coluna deu como falecido o senhor Serge Skripal, espião duplo de seu ofício, e essa informação era manifestamente exagerada, como terá dito Mark Twain acerca da notícia da sua própria morte; de facto, Skripal está vivo e em convalescença tal como a sua filha, e esse feliz facto parece vir confirmar que os russos não têm tanto jeito para matar quanto se diz. Pela informação errada pede-se, pois, desculpa, e pela sobrevivência de Skripal será adequado manifestar algum júbilo porque o homem parece ser um especialista na sua peculiar arte e, ao que consta, cada vez mais o mundo precisa de especialistas. Entretanto e ainda na área do uso criminoso de armas tóxicas, a televisão veio entretanto renovar informações cujo teor há muito deixou de ser raro: segundo ela, na Síria as forças fiéis ao presidente Bashar El-Assad desencadearam novos ataques com armas tóxicas, o que não apenas é interdito por regras internacionais como, neste concreto caso do conflito sírio e a julgar pelo teor das telenotícias, implica um curioso e sinistro pendor de tais armas para vitimarem sobretudo mulheres e crianças. É certo que Bashar não é russo, mas tem o apoio russo no combate contra grupos «rebeldes» averiguadamente municiados em armas e dólares pelo chamado Ocidente, palavra esta que como é sabido tem as costas muito largas, e esse apoio é suficiente para que seja condenado pelos media que diariamente nos enchem de sabedorias.

Duas desgraças decisivas

Entretanto, quem porventura quiser ser informado para lá do que nos é esclarecido pela televisão e órgãos informativos que são seus compagnons de route, a Síria de Bashar-el-Assad estava, antes de começar a ser devastada pelos democráticos «rebeldes» que a vêm pondo a ferro e fogo, longe de ser o inferno na Terra que a comunicação social descreve ou, à penúria de factos, simplesmente insinua. Em verdade, não é difícil encontrar fontes de informação credíveis que nos informem de que na Síria anterior à invasão «rebelde» as condições sociais (ensino, apoios estatais aos mais carenciados, situação das mulheres, tolerância religiosa, consentimento para a pluralidade de opiniões expressas, várias outras ainda) eram de longe melhores do que em qualquer outro dos estados árabes. Mas à Síria aconteceram duas desgraças decisivas: possuir lençóis petrolíferos abundantes e haver recusado pressões para que a sua exploração fosse concedida a interesses norte-americanos. Estava, pois, a Síria condenada a deixar de ser o que era e o que está em curso é a remissão dos seus grandes pecados. Todo o resto vem por acréscimo, e nesse resto estão incluídas denúncias como a do uso de armas tóxicas contra criancinhas e suas mães. É então que a informação se comporta como a mais tóxica das armas.

 



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