Quotas de anticomunismo

As eleições em Cuba são uma das botas difíceis de descalçar do anticomunismo que povoa grande parte do espaço mediático. A sua própria realização desmente a caricatura com que o processo democrático da ilha caribenha é retratado na nossa imprensa.

As recentes eleições para a Assembleia Nacional e para as assembleias provinciais do Poder Popular, em Março passado, foram, sem surpresa, alvo de um tratamento mediático marcado pela deturpação e pela manipulação. Foram recorrentes as referências ao «partido único», ignorando que não é o Partido Comunista de Cuba quem concorre. Aliás, o processo profundamente democrático de escolha dos representantes do povo cubano é escondido para não baralhar a narrativa.

A alteração na presidência dos conselhos de Estado e de Ministros cubanos deram azo ao mais bafiento anticomunismo na imprensa nacional, a mesma que ignora o bloqueio promovido pelos EUA a Cuba. O incómodo com a reafirmação da Revolução cubana, do seu carácter socialista e do caminho de soberania e independência por parte dos novos órgãos eleitos e do novo presidente foi tal que levou a que José Rodrigues dos Santos tenha afirmado, em directo num espaço noticioso da televisão pública, que Cuba tinha eleito um «novo ditador». O homem é eleito e já foi promovido a ditador...

Apesar do desvio por Cuba, os anticomunistas com lugares cativos na imprensa nacional não deixam de ter como principal alvo o PCP. Foi isso que revelou a forma como o posicionamento do PCP face às propostas do Governo em matéria de «paridade» foi tratado no espaço mediático. O facto de o PCP defender que não é por via administrativa, com quotas, que se resolve a subrepresentação das mulheres nos órgãos do poder político, mas pela consagração de direitos, não só na lei como na vida, serviu para arremessar acusações de conservadorismo e, até, que o PCP teria «um problema com as mulheres».

Podemos lembrar o historial de propostas do PCP em defesa dos direitos das mulheres e pela igualdade no trabalho, na lei, na vida; pelos direitos sexuais e reprodutivos; pelo direito a salário igual por trabalho igual mas também à participação política, como facilmente se comprova pela composição do seu grupo parlamentar ou das suas listas de candidatos. Não por acaso, nas últimas eleições autárquicas, a CDU foi das poucas forças que não viu qualquer lista identificada pela Comissão Nacional de Eleições por não cumprir a quota de 33 por cento actualmente em vigor, coisa que o PS, o PSD e o CDS-PP não podem afirmar.

Mas a verdade é que o PCP, tendo afirmado a sua oposição às propostas de alargamento das quotas e da sua aplicação aos cargos dirigentes da Administração Pública, foi o único partido que apresentou propostas alternativas, caminhando para um combate às causas que levam ao afastamento de muitas mulheres da participação política e de cargos superiores. Não por acaso, pelas notícias que foram saindo, é como se não tivesse acontecido.




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