• Manuel Augusto Araújo

O escândalo estalou entre os membros da Academia, com uma série de demissões
A crise do Nobel da Literatura

LUSA


O prémio Nobel da Literatura é um selo que, mais que qualquer outro prémio, garante o êxito comercial. Só estar na lista dos elegíveis é um suplemento para as vendas. Este ano não será atribuído. Os prémios Nobel têm uma longa e controversa história. Foram instituídos em 1895, por vontade de Alfred Nobel, o inventor da dinamite. A Fundação Nobel foi criada em 1900 para gerir e administrar o Prémio Nobel. Começaram a ser entregues em 1901 nas categorias de Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura e Paz. Em 1968 foi criado o da Economia. Os debates sobre os critérios do júri, a Academia Sueca das Letras, dos seleccionados até à escolha do premiado sempre foi intensa. Se é aceitável que um júri, de qualquer prémio ou atribuição de bolsas, cometa injustiças para tentar fazer justiça, é bastante incompreensível que a literatura brasileira nunca tenha sido distinguida, que escritores como Proust, Joyce, Nabokov, Kafka ou Borges tenham sido preteridos em favor de outros bem menos significantes.
A atribuição do Nobel da Literatura foi muitas vezes contaminada pelo
marketing editorial mas também por razões políticas, à semelhança do que tem sucedido com o Nobel da Paz. Só assim se compreende que tenham sido distinguidos Winston Churchil (1953), Cholokov (1965) Soljenstein (1970), Svetlana Alexijenjevitch (2015). Mesmo Pasternak e o Dr. Jivago é bastante discutível quando comparado com a sua obra literária. Em Portugal, além desse livro que, no comboio movido pela locomotiva do Nobel foi um grande êxito, só foi publicado Melodia Interrompida e Conversa a Três, com Marina Tsveteieva e Rainier Maria Rilke. Da sua poesia nada, o que é uma ausência pouco aceitável.

Em 2016, a atribuição do Nobel a Bob Dylan foi duramente criticada, nem é defensável por um júri que tinha esquecido poetas como W. H. Auden, Erza Pound, Kavafis, Dylan Thomas, Aragon, Ponge ou René Char, enquanto vivos ou um Adonis, ainda activo, para não referir os brasileiros, o Brasil é terra de ninguém para os ilustres jurados do Nobel.

Num labirinto

Este ano, o Nobel da Literatura não vai ser atribuído, situação que tinha ocorrido de 1914/1918 e 1940/1943, anos de guerra, e 1935 porque consideraram que nenhum concorrente devia ganhar. As razões de hoje são diferentes e, sinal dos tempos, relacionadas com fugas de informação e escândalos de assédio sexual protagonizados pelo marido de um dos membros do júri, ambos directores do Fórum, um promotor de eventos culturais de grande impacto na Suécia que é fortemente subsidiado pela Academia de Letras Sueca, que tem a tarefa de fazer a selecção e a atribuição dos prémios Nobel. O conflito de interesses é evidente em consonância com outros interesses, políticos e comerciais, que têm poluído as suas decisões. O escândalo estalou entre os membros da Academia, com uma série de demissões de algum modo inesperadas por serem membros vitalícios, pelo que as renúncias são sobretudo simbólicas. O presidente da Fundação Nobel, Carl-Henrik Heldin, assinou um comunicado que confirma a decisão de adiar a atribuição do Nobel da Literatura, explicando que essa decisão, rara mas com antecedentes, foi assumida por «circunstâncias que podem justificar uma excepção que acontece quando uma instituição que atribui distinções é atingida por algo tão grave que pode minar a sua credibilidade».

O Nobel da Literatura entrou num labirinto. Nem as muitas vezes em que tem feito justas distinções, a par de outras sumamente discutíveis, é suficiente para o resgatar. Júri e critérios têm que ser radicalmente alterados. Enquanto se espera os resultados de inquéritos, auditorias e suas consequências, celebre-se os 20 anos da atribuição do Nobel a José Saramago, uma distinção justa para a literatura de língua portuguesa que, em mais de cem anos, tinha sido olimpicamente esquecida pelos jupiteres da academia.

 



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