• Correia da Fonseca

Sob pseudónimo

Era segunda-feira e por consequência lá veio o programa do costume, teletempo de debate, o «Prós e Contras». E veio anunciando um tema que, curiosamente, era enganoso: «a violência no desporto». O facto que aliás ninguém ignorará é que a violência não existe em grau preocupante «no desporto» em geral, como o título tacitamente informava, mas sim no futebol, onde se mantém a génese de carácter desportivo, é certo, mas em enorme medida subvertida pela intrusão de outros factores, designadamente os financeiros e os sociopolíticos. Falando apenas do nosso País, vale a pena lembrar a opinião irónica de um sujeito anónimo mas sábio: «se os últimos reis portugueses tivessem apostado na expansão do futebol então recém-introduzido entre nós, ainda viveríamos em monarquia». Quanto à violência, é factual que ela tem sido vista a acontecer também em torno de outras modalidades, designadamente nas ainda ditas amadoras embora pareçam sê-lo cada vez menos, ainda de intensidade relativamente fraca, mas muito importará saber se isso não acontece por contágio do que ocorre em torno do futebol que de facto funciona como centro infeccioso. Assim, dependurar o título «A violência no desporto» à porta do programa apresentado e em larga medida gerido por Fátima Campos Ferreira surge como uma forma de desviar do futebol e dos que no futebol mandam a responsabilidade que lhes cabe. De facto, naquele título a palavra «desporto» funcionou como pseudónimo e princípio de batota. O que não terá sido a melhor maneira de iniciar um debate sobre tema que se quer desportivo.

Travar a infecção

Mesmo que o tema de arranque do programa não tivesse sido o caso das agressões ocorridas alguns dias antes, sempre o debate teria de ter como ponto relevante a existência das chamadas «claques» e o seu comportamento. As claques dos clubes de futebol são muitas vezes, se não quase sempre, grandes grupos vocacionados para usarem a agressão como método corrente e a negação do mais elementar espírito desportivo como orientação fundamental. Não é por acaso, é claro, que elementos neonazis se infiltram nas claques «desportivas»: é porque nelas se reencontram com os seus métodos, com a brutalidade como raiz dos comportamentos. Assim, é inaceitável a protecção de vária ordem, incluindo a financeira, que direcções de clubes desportivos dão a essas legiões privadas que até detêm uma espécie de armamento próprio: tochas, mocas, correntes, coisas assim. E porque são de facto legiões privadas e brutais, só há uma coisa que o Estado de Direito tem a fazer com elas: proibi-las. Não é que todos os que integram esses grupos sejam escumalha delinquente: é que o prazer da violência em grupo é uma espécie de doença contagiosa e altamente virulenta. Acabar com a infecção que as claques constituem é um imperativo para o país civilizado que queremos ser.




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