• Henrique Custódio

Hooliganismos

O termo inglês hooligan significa «vândalo» e o hooliganismo passou a classificar a violência no futebol britânico a partir dos anos 60 – curiosamente, quando as populações imensas do chamado «mundo ocidental» recomeçaram a enfrentar crises sociais que jamais pararam de se agravar, até hoje.

O fenómeno mereceu estudo e combate radical no reino de sua majestade: as claques de futebol foram abolidas, identificados os vândalos que a elas pertenciam, proibidos de frequentar espectáculos de futebol e a serem enclausurados em esquadras de polícia no decurso dos jogos. Como se diz, foi remédio santo e, hoje, os hooligans britânicos vão hooliganar para o estrangeiro, onde encontram parceiros de jornada cada vez com mais abundância ou não estivesse a eterna crise capitalista por trás disto tudo.

Em Portugal, as claques de futebol entraram de manso, até foram certificadas por direcções dos clubes (como aconteceu no Sporting) e recebendo dessas direcções um amplo espaço de manobra, tão amplo como não acontece (nem de perto nem de longe) com outra instituição, pública ou privada, a actuar no nosso País.

Também de manso, tornou-se «imagem de marca» ver-se as claques de futebol dos três principais clubes caminharem em multidão hululante para os estádios, dentro de «gaiolas» vigiadas pela polícia e exibindo coreografias de violência com total impunidade, enquanto os efectivos policiais mobilizados para estas «operações de segurança» sobem às largas centenas e até aos milhares de efectivos, tudo pago pelo erário público.

Enquanto as claques são uma espécie de submundo onde se referem abertamente as mais variadas traficâncias, à superfície são inacreditáveis «tropas de choque» dos clubes que fanfarroneiram pelas ruas, enquanto são assanhadas pelos discursos crescentemente agressivos e violentos dos dirigentes clubistas.

Dos incêndios de bancadas ao assassínio de adeptos por tochas ou por atropelamento foram apenas passos em crescendo deste banditismo consentido, até se chegar ao ataque de Alcochete, onde um bando de cerca de 50 energúmenos fez o impensável e agrediu as equipas técnica e de futebol do Sporting.

Se o Governo quisesse atacar o problema na raiz olharia para o exemplo do Reino Unido e varreria as claques do futebol nacional, mas não se perspectiva como provável tão corajosa atitude: o futebol é uma indústria gigantesca que move grandes interesses capitalistas, negócios nebulosos e marginais ou ilicitudes escondidas no recurso indiscriminado de paraísos fiscais, como hoje se afirma largamente por aí.

Pode ser bastante sujo, mas há imenso dinheiro a ser lavado nos labirintos do futebol. Enfrentá-lo, exige uma coragem revolucionária que, manifestamente, não há.

 



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