A «crise dos caminhos-de-ferro» obriga governo a intervir
Caos na circulação ferroviária relança debate sobre nacionalização

REINO UNIDO A exploração privada dos caminhos-de-ferro está novamente a ser questionada pelos utentes e por forças políticas britânicos, na sequência do caos instalado na circulação ferroviária.

Segundo relatou a AFP, centenas de comboios têm sido cancelados e os atrasos são incontáveis nas últimas semanas, devido a uma alteração radical dos horários por parte dos dois maiores operadores da rede da Inglaterra: Govia Thameslink Railway (GTR) e Northern.

Os novos horários foram apresentados como a reforma «mais ambiciosa» da história recente dos caminhos-de-ferro britânicos. Deveriam permitir aumentar o número de trajectos para fazer face ao forte crescimento de passageiros.

Contudo, desde a sua introdução em finais de Maio, foi o contrário que se verificou: metade dos comboios é anulada e a outra metade sofre atrasos intoleráveis. Os operadores apontam atrasos nas obras de melhoramento das vias e confessam dificuldades em preparar as equipas para aos novos trajectos.

A «crise dos caminhos-de-ferro», segundo a expressão utilizada pela BBC, já dura há pelo menos três semanas e não só provocou uma chuva de reclamações como também colocou na ordem do dia a necessidade de uma intervenção do Estado.

Foi nesse sentido que 25 jornais locais do Norte de Inglaterra, região particularmente afectada pela «crise ferroviária», lançaram, na semana passada, um apelo conjunto à primeira-ministra, Theresa May, para que se ocupe pessoalmente do assunto.

O apelo exige o reforço dos poderes da autoridade local dos transportes, para que possa exercer uma «vigilância plena» dos caminhos-de-ferro na região.

May declarou entretanto que a situação é inaceitável, enquanto o ministro dos Transportes, Chris Grayling, pressionado para se demitir, anunciou a realização de um inquérito pelo regulador do sector.

Mas a falência comprovada da exploração privada leva os sectores da esquerda a exigir claramente a renacionalização dos caminhos-de-ferro, proposta insistentemente defendida pelo líder dos trabalhistas Jeremy Corbyn.

Para Andy Burnham, presidente trabalhista do município de Manchester (Noroeste da Inglaterra), a confusão gerada pela reforma dos horários mostra que a fragmentação do sistema ferroviário, nas mãos de duas dezenas de operadores privados, «simplesmente não é capaz de prestar um bom serviço à população».

Esta realidade é hoje tão manifesta que o próprio governo conservador anunciou, em meados de Maio. que irá recuperar as linhas férreas do Leste do país, face à incapacidade da empresa exploradora de rentabilizar a operação.




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