• Anabela Fino

Prognóstico

O clima está a mudar e não apenas no que ao frio e ao calor diz respeito. Com um presidente norte-americano mais errático do que o anticiclone dos Açores, as previsões para o tempo político que nos espera são feitas à vista, tipo ir à janela tentar adivinhar o que nos reservam os desígnios atmosféricos, só que agora na versão Twitter, que com a entrada de Trump na Casa Branca se transformou numa espécie de extensão da sala oval, quando não mesmo no seu avatar.

Se é um facto que o encontro de Kim Jong-un e Trump em Singapura é um acontecimento histórico, simplesmente por ter ocorrido malgrado todas as peripécias que o antecederam, o que daí advirá, seja o que for que ficar escrito e assinado no papel, pertence ao domínio do insondável. Basta ter presente a displicência com que Trump rasgou no mês passado o acordo nuclear com o Irão, ou a leviandade, para não lhe chamar outro nome, com que no sábado «desassinou» o acordo que horas antes havia assinado na cimeira do G7, para perceber que com Trump tudo pode acontecer.

Se o presidente dos EUA já habituou o mundo a decidir uma coisa e o seu contrário, invocando para o efeito a mesma «riqueza» de argumentos que caracteriza as suas mensagens no Twitter, pela parte que me toca confesso que não me consigo habituar (melhor dizendo, recuso-me mesmo a fazê-lo) à forma como os dirigentes das nações mais industrializadas no mundo, secundados pela comunicação social dominante, tratam a imprevisível governação da criatura e a política dos EUA em geral.

É certo que Merkel classificou de «deprimente» a atitude de Trump no G7 e Macron lamentou a «incoerência» e «inconsistência» do presidente norte-americano, só para citar os mais badalados, mas nem a chanceler alemã nem o presidente francês – tão prontos a lançar anátemas sobre os dirigentes menos alinhados com os ditos «valores» ocidentais – se atreveram a ir mais longe na crítica. Quanto aos media, que não perdem uma oportunidade de se referir ao «regime» quando se trata do Irão, da Síria ou da Venezuela, por exemplo, assim instilando a ideia da ilegitimidade dos respectivos governos, bem podemos esperar sentados que ponham em causa a «democracia» norte-americana.

Da pena de morte às intervenções armadas unilaterais em todo o mundo, das políticas anti-sociais à corrida ao armamento, do desrespeito das decisões da ONU (como no caso do apoio incondicional a Israel na sua tentativa de inviabilizar um Estado da Palestina ou do embargo a Cuba) à admissão de recurso a armas nucleares, os EUA podem fazer tudo que a sua condição de «democracia» nunca é beliscada nem os seus presidentes acusados de ditadores.

Feito o diagnóstico, o prognóstico, como diria o outro, só pode ser: é o capital, estúpido. A democracia não é para aqui chamada.




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