Silenciamento e falta de memória

A manifestação que a CGTP-IN convocou para o passado sábado, em Lisboa, e na qual convergiram muitos milhares de trabalhadores que têm dinamizado a luta reivindicativa nas suas empresas e sectores foi amplamente silenciada pela comunicação social dominante. Não sendo uma realidade nova, não é menos escandalosa.

O tratamento mediático da manifestação foi idêntico ao que, globalmente, é dado às lutas que lá convergiram: esconde-se a dimensão do protesto e, particularmente, afunila-se ou esconde-se as razões que levam um mar de gente de todo o País a Lisboa. Nesse próprio dia, os trabalhadores das lojas da H&M em Braga e do Minipreço em Corroios estiveram em greve, mas nada disto passou na televisão ou na rádio.

Outros há, como fez o Expresso, que constroem efabulações, desta vez querendo fazer da manifestação de sábado uma forma de «pressão» do PCP sobre o Orçamento do Estado. Talvez não entendam que, ao ignorar as reivindicações e motivações concretas dos trabalhadores, estão também a insultá-los e à sua luta.

O silenciamento foi tal que quem passasse em frente a uma banca de jornais no domingo não podia adivinhar o que tinha acontecido no dia anterior. Os quatro diários nacionais escolheram não fazer uma única referência à manifestação nas suas capas, ainda que as razões que a justificaram de lá não estivessem ausentes.

Seja no Público, que fez manchete com especulações em torno de hipotéticas iniciativas do PS sobre as carreiras dos professores, quando estes últimos estiveram na rua no dia anterior a exigir que se cumpra o que está na lei e que o Governo assuma a contagem do tempo (e não de algum tempo) de serviço em que viram o seu trabalho desvalorizado e o seu rendimento real a cair. O tema foi também tratado na capa do Diário de Notícias, mas desta feita a partir de uma entrevista a um dirigente do PSD, que deitou lágrimas de crocodilo pelos professores, sem que tenha sido confrontado com o seu passado (e do seu partido). Essa é, aliás, uma característica que, nestes momentos, se torna muito presente nos média dominantes: a falta de memória.

Nas televisões, o panorama não foi substancialmente diferente. Nos canais ditos informativos, apenas a televisão pública fez um directo de parte da intervenção do secretário-geral da CGTP-IN, com os restantes a apenas fazerem apontamentos de reportagem. Nos alinhamentos dos telejornais, os critérios editoriais ditaram que o acontecimento do dia fosse o mergulho presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa em águas açorianas ou a chegada do avião que levou a seleção nacional de futebol à Rússia, onde vai disputar o Mundial de Futebol. No caso da RTP, a referência à manifestação chegou apenas na segunda metade do Telejornal.

O que nenhuma televisão, e muito menos algum jornal, fez foi mostrar imagens que permitissem perceber a real dimensão do protesto. Este é, aliás, uma outra forma de manipulação da informação: não é só o ângulo de abordagem que abre ou fecha consoante os interesses editoriais, isso também acontece com as imagens.




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