• Henrique Custódio

Campeonatos

Enquanto o campeonato mundial de futebol vai aspergindo entusiasmos na população, os políticos encachecolam-se dos pés ao pescoço para, «junto do povo», vibrarem honras pátrias e alinharem na competição como um «desígnio nacional». Seja o Presidente da República no Terreiro do Paço, aos pulos com o presidente Medina do município ou o Primeiro-Ministro Costa a abraçar membros da entourage no estrangeiro, todos de fio a pavio pugnam e alinham na «gesta» induzida e coreografada a primor pelas televisões. Entretanto, chega o Verão, as instituições metem férias (o mesmo não dirá o «povo português» que, a trabalhar a ordenado mínimo na sua maioria, «passa as férias» em casa) e a governança folga.

Mas o País não pára, evidentemente – nem os nossos governantes, que são gente que nunca descura o essencial para prosseguir a política de direita, a tal que trilham já com desafogo.

É o caso flagrante do ministro do Trabalho Vieira da Silva, esse homem fatal, tão traquejado nas andanças de governar o Trabalho, que (como se tem verificado na sua carreira governamental) tanto é capaz de zurzir a política de direita com os argumentos certos usados pelos sindicatos como, de seguida e sem transição, ir para o governo executar o que tinha acabado de verberar.

Este homem, quando o País anda absorvido no Mundial da Rússia e massacrado com a novela do Sporting, decidiu entre os pingos da chuva oficializar o acordo de concertação social que cozinhou com o patronato e os mandaretes sindicais da UGT onde, nomeadamente, cede aos patrões a exigência de subir para 180 dias o «período experimental» dos trabalhadores (entre outras), o que não está a cair nada bem entre os partidos, incluindo o PS que, no caso, decerto se sente incomodado com tanto reboliço à volta desta negociata mal escondida entre Vieira da Silva e o patronato.

Os comentadores profissionais da burguesia bem se esforçam por difundir em todas as tribunas que os partidos «estão em campanha eleitoral», o que parece retirar seriedade às reivindicações e às greves que rebentam quase diariamente e fazer da luta partidária um jogo burguês onde (como é sabido) vale tudo, menos a seriedade das coisas.

É outro caminho para aprofundar a lengalenga de que «os partidos são todos iguais».

É outra maneira de inseminar nas massas, à socapa, a velha ideia de que vivemos num mundo inamovível, onde o poder se disputa em eleições representativas, que é «o melhor dos sistemas entre todos os sistemas falhados».

É, ainda, a vetusta mentira de negar a luta de classes, para fugir ao seu poder transformador.

Mas há luta de classes: nela, há quem defende os interesses dos trabalhadores e quem os ilude e nega. Como o Governo minoritário do PS parece querer trilhar.

 



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