• Correia da Fonseca

E a Tailândia aqui tão perto

Lá nas lonjuras dos orientes, num país chamado Tailândia e que em tempos se chamava Sião, entalado entre Myanmar e o Vietnam, aconteceu um percalço grave a um grupo de jovens, todos na adolescência, a quem os telenoticiários chamaram crianças decerto para reforço dos sentimentos de ansiedade e simpatia que a sua situação haveria de despertar. O caso é que os jovens se haviam aventurado numa gruta perto do mar e a subida das águas bloqueara-lhes a saída e ameaçara-os de morte por afogamento se não de outros modos: talvez por penúria de alimentos e água potável, talvez – quem sabe? – por angústia e desespero.

A sua situação seria especialmente complicada porque, por motivos técnicos nunca completamente explicados, o acesso à gruta era dificílimo, quer no sentido da entrada quer no da saída, e em consequência a morte rondava o grupo de jovens ou de crianças, como se queira designá-los, que nestas situações à beira de se tornarem trágicas não é a altura de se discutirem ninharias. Porém, como tudo neste mundo tem os seus lados negativo e positivo (embora muitas vezes seja difícil encontrar este último), este caso da gruta tailandesa foi um acepipe para os «media» especializados em pôr a render desgraças de dimensão vária, e naturalmente a televisão portuguesa não deixou escapar a oportunidade de mobilizar em seu favor a sensibilidade dos telespectadores. Houvesse em cada dia que passa um desabamento, uma inundação, uma explosão com muitas vítimas, e a televisão portuguesa viveria feliz.

Aqui ao lado
É de supor que a generalidade dos telespectadores tenha acompanhado com interesse a quase telenovela que durante um punhado de dias lhe foi fornecida com enredo centrado numa gruta tailandesa, até porque a televisão não poupou esforços para estimular esse interesse. Há nisto, porém, um aspecto que justificará reparo.

É que para nos falar de crianças envoltas em clima de tragédia eminente não é preciso ir para as tailândias e suas grutas: temos aqui, à nossa beira e a céu aberto, o Mediterrâneo quase diariamente engolidor de crianças e também de velhos e de outra gente adulta, tanta e de tal modo que quase bastará escolher um qualquer dia para a reportagem. De caminho, talvez caiba um espaço para notar e lamentar a quase indiferença, quando não o total desinteresse, pela morte de velhos, também eles presentes nas embarcações naufragadas entre o norte de África e o Sul da Europa mediterrânica.

É certo que os velhos não são bonitos como as crianças, nem apetece beijocar-lhes as bochechas, mas parece que em certos lugares há quem diga que quando morre um velho é como um livro que se fecha. De qualquer modo, é certo que também velhos, ou adultos perto de o serem, morrem em águas que nos são próximas. De uns e de outros pode a televisão esquecer-se porque não morrem em grutas tailandesas?




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