• Correia da Fonseca

Eles, isto é, todos nós

Já aqui foi registado que algumas das mais relevantes informações que a televisão nos presta surgem em local secundaríssimo, no chamado rodapé dos nossos televisores. Ela, a televisão portuguesa, lá saberá porquê. Foi assim que um destes dias apareceu no tal rodapé a informação de que «Portugal é o país da UE onde os velhos são pior tratados», tema que obviamente tem a ver com nós todos porque em verdade velhos somos nós todos, alguns desde já, outros a prazo nunca muito distante porque, como vamos aprendendo ao longo do tempo, o envelhecimento é fenómeno bem mais rápido do que parece aos que ainda estão nas primeiras voltas do caminho.

Regressemos, porém ao que importa, que é a informação com origem decerto em fonte sólida e merecedora de crédito, para sublinhar duas ou três coisas. A primeira delas será que não surpreende: bem sabemos como está em prática generalizada a remoção dos velhos para uma espécie de vestíbulos da morte designados (com uma involuntária ironia cruel) por «lares», lugares esses que muitas vezes são de uma espécie de tortura mansa.

Acrescente-se, porém, que o arquivamento de velhos nessas especiais prateleiras não decorre da circunstância dos seus filhos ou outros descendentes serem feios, porcos e maus, ainda que essa causa também ocorra: apenas acontece, dramaticamente, que as estruturas sociais não estão montadas para permitir a solução de um problema que bem se sabe inevitável mas não apetece abordar, por difícil.

Razões: todas e mais uma
Acerca dos velhos portugueses, os que já o são e não os que o serão um dia, sabe-se alguma coisa. Sabe-se que são muitos, designadamente em comparação com os que ainda não são velhos, o que bem se compreende se nos lembrarmos de que andamos há décadas a exportar jovens para diversos lugares do mundo onde aliás são apreciados. Sabe-se que «são pouco saudáveis», fórmula oficiosa quase eufemística por detrás da qual estão baixos níveis de vida ao longo de toda a existência e dificuldades de vária ordem para enfrentar em tempo adequado eventuais ameaças de doença.

Sabe-se que são eles, os velhos, os que dão maior contributo para a alta taxa de pobreza na população portuguesa. Sabe-se que não são especialmente respeitados, porque não há entre nós o respeito pela velhice que integra a cultura tradicional de outros países. Sabe-se que na estrutura governativa não há nenhum sector que se ocupe especialmente dos velhos e da velhice, diferentemente do que acontece com a juventude. E sabe-se agora que Portugal é, na Europa, o campeão do descaso perante a velhice.

Apetece apelar a quem gere a coisa pública para que providencie com urgência no sentido de eliminar essa triste liderança. Por óbvias razões e mais uma: o facto de estarem velhos ou no limiar da velhice os que fizeram Abril. Em 74, sim, e também nos anos anteriores.

 



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