• António Santos

A barata e a galinha

Alexandria Ocasio-Cortez. Este é o nome da jovem de 28 anos que, no passado dia 26 de Junho, fez tremer o Partido Democrata (PD). Com um orçamento de campanha 18 vezes mais modesto, a praticamente desconhecida e auto-denominada «socialista democrática» destronou Joe Crowley, um dinossauro eleito consecutivamente há dez mandatos, vencendo as primárias do 14.º distrito de Nova Iorque com mais de 60 por cento dos votos. Se, em Novembro, vencer o candidato republicano nas eleições para a Câmara dos Representantes, como é apanágio deste bastião do PD, será a segunda congressista, juntamente com Bernie Sanders, a falar de socialismo nos EUA.

A última vez que Nova Iorque elegeu um congressista socialista foi em 1914. Durante o século que se seguiu, um poderoso libelo de sangue abateu-se sobre quem quer que alvitrasse socialismos, empurrando a esquerda para fora de todas e quaisquer contendas eleitorais. Mesmo há uma década, não passava pela cabeça de nenhum candidato falar em socialismo. Resultado de mais de um século de campanhas de desinformação, intoxicação e repressão, a palavra assustava o eleitorado. Mas algo mudou e, como demonstra Ocasio-Cortez, o socialismo voltou a atrair votos.

Segundo um estudo da Universidade de Harvard, em 2017, um terço dos jovens estado-unidenses preferia viver numa sociedade socialista em detrimento do regime capitalista. E não é difícil entender porquê: «Para mim, [o socialismo] quer dizer que numa sociedade moral, próspera e moderna, nenhum americano devia viver na miséria», explicou recentemente Ocasio-Cortez no Colbert Report, «quer dizer que qualquer trabalhador devia ter acesso a um serviço de saúde digno e poder ir ao médico sem ir à falência», resumiu. Se parecem metas pouco ambiciosas para qualquer definição de «socialismo», foram razão de sobra para renovada histeria anticomunista no seio do PD, bem ilustrada na súplica do ex-director do FBI, James Comey, aos seus correligionários: «Por favor! Por favor! Não percam a cabeça precipitando-se para a esquerda socialista».

Depois de perder as eleições para as duas câmaras do Congresso e da estrepitosa queda de Hillary Clinton, o PD mergulhou numa profunda crise. Foi esse esgotamento político, provocado pela alternância indistinguível com o Partido Republicano, que abriu o flanco: para quem, à esquerda, procurava uma plataforma eleitoral viável dentro do PD, surgia agora uma alternativa para refrescar o partido e combater Trump. Entre as várias organizações que seguiram o caminho do entrismo e da participação em listas democratas, distingue-se os Socialistas Democráticos da América, o partido de Ocasio-Cortez. Esta organização, em franco crescimento, procura agora replicar o fenómeno nova-iorquino noutros Estados, lançando candidatos «socialistas» nas primárias do PD.

Escusado será dizer que não se sai desta estratégia sem comprometimentos mil. Uma das principais utilidades históricas do PD para o grande capital reside precisamente na sua capacidade de cooptar os movimentos de massas, retirando-lhes o potencial transformador e reduzindo-os a movimentos por reformas mais ou menos circunstanciais. É verdade que o sistema eleitoral estado-unidense está feito para que só participem democratas e republicanos mas a classe trabalhadora precisa de um partido só seu e completamente independente. Ocasio-Cortez traz mais visibilidade ao socialismo, mas adia a construção da única organização que o pode construir.

Diz um velho provérbio haitiano que a união da barata com a galinha acontece no estômago da galinha. Alguma barata mais intrépida pode até asseverar que está a mudar o sistema a partir de dentro, mas a verdade é que está só a ser digerida.

 



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