• Henrique Custódio

Algo podre

Em notícia do Expresso – profusamente difundida pela SIC e algo pelos outros canais – ficou a saber-se que «o Banco de Portugal acusa Ricardo Salgado, Morais Pires e Isabel Almeida de terem desviado três mil milhões de euros do BES entre 2009 e 2014 através da holding Eurofin», sediada na Suiça.

Não é novidade, mas este repegar do assunto pelo semanário (e televisão) de Pinto Balsemão é curioso, sobretudo pelos pormenores minuciosos e comprometedores que recapitula.

Primeiro, define o «triângulo das malfeitorias» que o BdP identificou: Ricardo Salgado, no papel do presidente do BES «que consente», Amilcar Morais Pires «descrito como o cérebro do esquema» e Isabel Almeida, directora financeira, «a operacional de um esquema que, secretamente, tirava dinheiro do BES, deixando na ignorância os outros administradores, os investigadores e os investidores do banco».

Os três terão usado uma holding do grupo, a Eurofin, sediada na Suiça, para «financiar investimentos, o saco azul do GES, depósitos activos tóxicos e manipular acções do grupo BES». A investigaçao do BdP «detectou, entre 2009 e 2014 [data do encerramento do BES] um desvio de três mil milhões de euros (sublinhe-se a enormidade da quantia)», mil milhões dos quais desaparecidos num gigantesco buraco negro detectado no encerramento do banco e na sua transfiguração em «Novo Banco».

São também explicitados na notícia alguns beneficiários do «saco azul», nomeadamente Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, da PT, e Manuel Pinho, ex-ministro da Economia de José Sócrates que, por sinal, não se conteve e veio a público invectivar «os senhores deputados» que faziam perguntas a Pinho que sabiam «ele não poder responder» (por não ter prestado declarações ao juiz de instrução devido a manobra processual, mas isso Sócrates não invectivou), além das ladainhas do costume, em José Sócrates, contra o Ministério Público e os seus «métodos».

Sabemos que a supracitada investigação do Banco de Portugal ao escândalo BES escudará a sua lentidão em vir a público com resultados, na costumeira necessidade de tempo para estas inquisições. Será.

O que o BdP não explica é como deixou passar, incólume e impune, durante seis anos consecutivos a actuação desta gente no BES, quando se amontoavam os indícios, dia a dia mais claros e vindos de todos os lados do sector financeiro/bancário, a indicar que «algo estava podre no reino do BES», parafraseando Shakespeare.

O que reconfirma que algo também estava bastante podre, no reino do Banco de Portugal...




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