• Nuno Gomes dos Santos

Victor Jara foi assassinado por ser comunista e apoiante de Allende
Assassinos de Victor Jara condenados 45 anos depois…

Existe em Portugal, há muitos e fecundos anos, um grupo musical, chamado Brigada Victor Jara, que nos tem cantado músicas e letras de qualidade, assim homenageando o homem cujo nome escolheram como «padrinho» da banda. A escolha do nome não foi por acaso.

A Brigada, nascida em 1975, ainda os cravos de Abril se desfraldavam, defendia as mesmas liberdades, o mesmo futuro, a mesma solidariedade e a mesma justiça que Victor Lídio Jara Martinez, nascido em Santiago do Chile em 1932 e assassinado, nessa cidade, no dia 16 de Setembro de 1973, num estádio de futebol que agora (desde 2003) tem o seu nome, por soldados das forças de Pinochet, que tinham derrubado e assassinado o presidente eleito, Salvador Allende, três dias antes.

A morte de Victor Jara ficou a dever-se ao «criminoso» facto de ser comunista, apoiante de Allende, professor universitário, encenador de Teatro e elemento importante da Nueva Canción Chilena, como cantautor e membro do grupo Quilapayún.

Não foi uma morte qualquer. Várias versões foram postas a circular sobre ela mas, divergindo nos pormenores, confluem nisto: Jara foi torturado, as suas mãos foram esmagadas, e levou com mais de 40 tiros à queima-roupa sendo o seu corpo, como os de tantos outros seus compatriotas e camaradas, atirado para uma vala comum.

Quem o julgou foi a vontade dos que o mandaram prender, num estádio feito campo de concentração, deixando a condenação capital ao critério de iluminados soldados ao serviço da direita mais repugnante. Assim se fazia, sumariamente, a justiça à moda de Augusto Pinochet, com complacências deploráveis e incentivos, a norte, mal disfarçados.

Rouxinóis e gaiolas
O Chile foi o que foi com Pinochet e seus sequazes, mais os sujos apoios internacionais que a política de repressão e barbárie teve para subjugar um povo que havia escolhido um caminho socialista para o seu futuro, em eleições livres e democráticas. E nós nunca mais ouvimos ao vivo «Vientos del Pueblo» na interpretação do seu autor.

Só em 1990 o Estado chileno, por intervenção da Comissão da Verdade e Reconciliação, reconheceu oficialmente o assassinato de Jara no Estádio de Santiago.

A viúva de Victor Jara, Joan Turner Jara, e as duas filhas de ambos, moveram, em 2013, um processo contra Pedro Barrientos, ex-militar chileno emigrado para os EUA (onde, claro!, foi bem recebido), naturalizado americano e prosperando num negócio de carros usados. Barrientos sempre se proclamou inocente, mas o tribunal de Orlando declarou-o culpado, em 2016.

Agora, em meados de 2018, a justiça chilena decretou 18 anos de prisão para oito militares pelo homicídio do cantor e cinco anos para um oficial por encobrimento do acto.

Há indemnizações para as famílias das vítimas. Quarenta e cinco anos depois do crime… São os tempos de agora a fazer a justiça (?) possível. Porém, os que ainda estamos vivos não ouviremos nunca as canções que Victor Jara não teve tempo de escrever. Porque «Cortaram as asas ao rouxinol. Rouxinol sem asas não pode voar. Cortaram-te o bico rouxinol! Rouxinol sem bico não pode cantar».

Por certo que Francisco Fanhais, ao musicar e interpretar esta «Cantilena» de Sebastião da Gama, pensou, também, em Victor Jara, mais uma vítima da «defesa da democracia» exportada por quem ainda não percebeu (ou sabe-o muitíssimo bem, o que é pior…) que as gaiolas, por mais douradas que se presuma que sejam, não passam de prisões, políticas se enjaulam ideias, reais se albergam pessoas, abomináveis quando prendem crianças no limiar das fronteiras.

Gaiolas douradas só nas estórias incomuns de emigrantes regressados e filmados por serem excepção. De resto não são mais do que grades, impedimentos, ilhas sem portos de partida. Nem que tenham o tamanho de um estádio de futebol em Santiago do Chile.

 



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