• Miguel Moura – texto e Clara Oliveira – fotos

A oitava edição do Acampamento pela Paz reafirmou o seu carácter ímpar no plano nacional
Acampamento pela Paz afirma necessidade do desarmamento nuclear

JUVENTUDE Serpa acolheu este fim-de-semana o Acampamento pela Paz, organizado pela Plataforma pela Paz e o Desarmamento, que juntou dezenas de organizações e associações, depois de meses de preparação e de inúmeras reuniões e iniciativas um pouco por todo o País.

Nesta que foi a oitava edição do Acampamento pela paz participaram mais de duas centenas de jovens vindos de todo o País – mobilizados pelas dezenas de associações e organizações formais e informais que integram a Plataforma pela Paz e o Desarmamento.

Ao longo do dia de sexta-feira foram chegando os autocarros vindos de todos os pontos do País. Se é certo que a viagem foi longa, também é verdade que ela foi animada e acabou por antecipar muito do que viria a acontecer naqueles três dias: alguns aproveitaram para pôr a leitura em dia, outros ouviam música, houve quem jogasse cartas e ainda quem tocasse guitarra e cantasse. Pelo meio houve sempre espaço para pôr a conversa em dia e avivar memórias entre aqueles que se reencontravam.

Após a recepção ao campista e a instalação das tendas, houve tempo para conhecer o espaço. De um lado estava o parque de campismo e do outro ficava a Piscina Municipal de Serpa, com um relvado apetecível, muita sombra e uma vista espantosa sobre a planície alentejana. À entrada, a decorar o espaço, estava uma faixa onde se lia «Paz Sim! NATO Não!». Mais adiante, na sombra, tal como à entrada do parque de campismo, estavam penduradas pombas feitas em papel.

Na Rota do Contrabando
Estava o eclipse lunar a iniciar-se quando se deram também os primeiros passos da «Caminhada Nocturna: Rota do Contrabando», em Vila Verde de Ficalho. Aos campistas que participaram nesta iniciativa, apoiada pela Câmara Municipal de Serpa, juntaram-se algumas dezenas de populares das terras vizinhas. Homens e mulheres, jovens e menos jovens, todos percorreram os 13 quilómetros da rota que os contrabandistas portugueses e espanhóis utilizavam, no passado, para trocar, por exemplo, roupa e trigo por café.

Pelo meio, iam-se vendo referências históricas àquele período: o moinho da várzea, onde os contrabandistas aproveitavam para beber água e ganhar novo fôlego para o que faltava, bem como alguns espaços onde guardavam os produtos do contrabando ou aqueles em que se escondiam das autoridades fascistas.

O eclipse lunar deu ainda mais espectacularidade à caminhada: se a iluminação já era pouca, com o eclipse ainda mais escuro ficou, sendo a utilização de lanternas essencial para se ver o caminho – que ora era de terra batida, ora feito de pedras, ora se caminhava naquilo que em tempos havia sido um riacho e que agora se encontra seco. À medida que, com a escuridão, se conseguiram ver centenas de estrelas e até satélites artificiais a sobrevoar o espaço, ia também aparecendo a lua vermelha, o que, aqui e acolá, também ia sendo tema de conversa.

No final da longa caminhada foi oferecido um lanche para recuperar energias e para conviver e falar sobre a caminhada que se tinha realizado.

Cinema, desporto e convívio
Ao mesmo tempo que alguns faziam a Rota do Contrabando, outros visionavam pequenos filmes, no parque de campismo, a que se seguiu uma troca de ideias sobre os temas em discussão, nomeadamente acerca do poder destruidor da guerra. Após a sessão de cinema ao ar livre, seguiu-se a After Party num bar da cidade de Serpa.

O sábado foi o dia do desporto, onde se destacam os torneios de basquetebol e futebol, realizados no pavilhão da Escola Secundária de Serpa. O facto de se ter montado as equipas ainda nos autocarros, a caminho do Acampamento, ajudou a agilizar o início dos torneios. Com a bola em campo, deu-se início aos jogos, num grande espírito de amizade mas também de competição amigável.

Um pouco mais tarde, a Associação de Judo de Beja promoveu também um workshop de Judo, onde foi possível aos participantes aprender algumas regras e movimentos básicos deste desporto de combate. Um outro workshop, denominado «Pinta pela Paz», foi organizado por alguns alunos da Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, onde se pintaram roupas e materiais reutilizados, dando-lhes uma nova vida. Em alguns foram pintadas mensagens de paz.

Uma luta de todos
Um dos momentos altos e mais participados do Acampamento foi o debate sobre «O Desarmamento Nuclear – urgência para um mundo de paz!», realizado no sábado à tarde no relvado da piscina. Na mesa estiveram Simão Calixto, da Associação Projecto Ruído, e Filipe Ferreira, do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), que abriram a discussão.

Se, por um lado, Simão Calixto destacou o percurso realizado pelas duas associações até ao Acampamento, nomeadamente com a petição pela proibição das armas nucleares (que recolheu mais de 13 mil assinaturas e «mais de 1100 contactos de jovens que se juntaram à luta pela paz»), por outro Filipe Ferreira destacou o histórico do movimento de lutas pela paz impulsionado com o final da Segunda Guerra Mundial e que continua ainda hoje. Ambos referiram por diversas vezes que a luta pela paz é transversal a todos e abrange outros direitos sociais, como se veio a comprovar com as intervenções que se seguiram.

Uma representante da Embaixada de Cuba referiu que o perigo de um ataque nuclear põe em perigo toda a Humanidade e destacou os passos dados na América Latina, que é hoje uma «zona de paz e livre de armas nucleares».

Um dirigente associativo do Ensino Superior afirmou, por seu lado, que os estudantes são confrontados com o aumento das despesas com a educação, ao mesmo tempo que o Governo se compromete a dar mais dinheiro para a corresponder às exigências da NATO. Pegando no mesmo exemplo, um representante da Interjovem/CGTP-IN referiu que não se pode afirmar que não há dinheiro para os direitos dos trabalhadores, dando o exemplo dos professores. Uma activista da Ecolojovem realçou que o próprio Partido Ecologista «Os Verdes» nasceu das movimentações contra a construção da Central Nuclear em Ferrel.

Da discussão havida resultou a conclusão de que é necessário dar continuidade à luta pela paz, pela educação e pelo trabalho com direitos, entre outras.

Após o debate realizou-se o Desfile pela Paz: os mais de 200 jovens saíram em manifestação do Parque de Campismo em direcção ao Espaço Nora, gritando palavras de ordem como «Paz Sim! Guerra Não!», «Educação Sim! Guerra Não!», «25 de Abril Sempre! Fascismo nunca mais!», bem como palavras de solidariedade com os povos de Cuba, Síria e Palestina, e muitas outras.

Serpa é «Autarquia da Paz»
Chegados ao Espaço Nora teve lugar o jantar-convívio. Após o momento de confraternização, foram feitas duas intervenções: de um representante da Plataforma pela Paz e o Desarmamento e de Tomé Pires, presidente da Câmara Municipal de Serpa, eleito nas listas da CDU. Ambos valorizaram a iniciativa, o envolvimento e o empenho de todas as organizações para erguer mais uma edição do Acampamento pela Paz e sublinharam a necessidade de reforçar a luta pelos valores de Abril e da paz, que estão intrinsecamente ligados.

Foram também saudadas as lutas pelo direito à educação e ao trabalho com direitos e, como não podia deixar de ser, todas as iniciativas que têm sido desenvolvidas em prol da paz, do desarmamento e da solidariedade com os povos, contra a guerra e as cimeiras da NATO, que têm ocorrido por todo o País ao longo dos últimos meses.

De seguida, a Plataforma pela Paz e o Desarmamento entregou ao Presidente da Câmara Municipal de Serpa o diploma que confere àquela autarquia, simbolicamente, o estatuto de «Autarquia da Paz».

Dançar e cantar
A muralha de Beja serviu de pano de fundo aos concertos realizados no sábado à noite no âmbito do Acampamento pela Paz, a que se somavam as três belíssimas arcadas reconstruídas que cobriam o espaço.

A primeira actuação foi do Trio Argentino, que pôs muitos a dançar ao som de alguns dos tangos mais conhecidos, incluindo também arranjos da compositora chilena Violeta Parra.

Os Innuendo entraram depois em palco, com uma sonoridade mais arrojada e a fazer abanar cabeças: tocaram clássicos do rock, como várias músicas de Queen, Led Zeppelin ou Michael Jackson, passando também por alguns temas mais conhecidos de Red Hot Chilli Peppers, Dire Straits ou Guns n’ Roses. Certo é que a música trouxe a boa disposição, visível nos rostos de quem lá estava, a cantar e a interagir com a banda, pedindo que tocassem este ou aquele tema e a banda a ripostar.

Terminou o concerto mas não parou a música, porque houve uma nova After-Party, desta vez num espaço do Parque de Campismo. Actuaram o DJ Gué, de Arraiolos, e, depois, a dupla DJs Peúgas, de Lisboa, que tocaram as malhas do Hip-hop, do Rap e do Trap.

Mural pela Paz
No domingo, logo pela manhã, pintou-se o mural do Acampamento pela Paz num dos muros do Parque de Campismo. Em tons de azul e laranja, com a muralha de Beja desenhada a preto e cinzento, ali ficou também inscrito o apelo dos jovens activistas para que se rejeite a guerra e se promova os valores da paz. Organizado pela Ecolojovem, e enquadrado na campanha nacional que está a realizar, houve ainda tempo para um workshop sobre Educação Sexual, que consistiu num jogo lúdico de perguntas rápidas, com o objectivo de desfazer mitos e esclarecer dúvidas sobre aquele tema.

Após o almoço de domingo os campistas começaram a regressar às suas casas, nos autocarros e nos carros, mais esclarecidos e com forças retemperadas para dar continuidade à luta pela paz.

O Acampamento pela Paz, na sua oitava edição, assumiu-se uma vez mais como uma realização única no País, em que centenas de jovens se juntam durante três dias para exigir um mundo de paz e solidariedade entre os povos, sem ingerências, sem armas nucleares e sem o perigo da extinção da Humanidade; um mundo onde todos tenham acesso aos direitos mais básicos e a serem felizes nos seus países.

Na memória de todos permaneceram as palavras proferidas por Filipe Ferreira no debate, segundo o qual a luta pela paz é «uma luta transversal e diz respeito a todos. O direito à educação, ao desporto, à cultura, ao trabalho com direitos, ao tempo para o descanso e para o lazer, são, como demonstrou este Acampamento, parte integrante da luta pela paz».




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