• Pedro Guerreiro

Macron procura dissimular o que pensa e o que quer
Banha da cobra

A «cruzada» federalista, neoliberal e militarista de Macron passou por Portugal, para júbilo, embora contido – talvez devido ao período estival –, dos núncios locais da União Europeia, que se prestaram ao número de manigância do presidente francês.

Baralhando e dando de novo, Macron procura dissimular o que pensa e o que quer, deturpando a realidade na medida apologética dos seus intentos. O cardápio é vasto e rebuscado.

Mistificador, Macron transfigura o seu intento de aprofundamento federalista – isto é, do reforço dos instrumentos de domínio do directório de grandes potências da UE e de uma ainda maior subordinação da denominada «periferia» aos seus interesses e desmandos – numa dita «soberania europeia», naturalmente à medida da ambição (e da necessidade) do grande capital francês.

Ao mesmo tempo, disfarça a sua ofensiva contra os direitos – veja-se o desrespeito de direitos, liberdades e garantias e o violento ataque do seu governo aos direitos sociais, incluindo laborais, e aos serviços públicos e a ampla luta em sua defesa que os trabalhadores e as populações levam a cabo em França –, na senda da «terceira via» de Blair rendida ao neoliberalismo, agora criativamente travestido de «progressismo» por Macron.

Do mesmo modo, Macron escamoteia o seu furor militarista e agressivo – autêntico paladino da corrida aos armamentos e do intervencionismo, veja-se a recente e eufemisticamente designada «iniciativa de intervenção europeia» promovida pela França e o seu ímpeto neocolonialista dirigido particularmente contra África e o Médio Oriente, mas sem esquecer o Extremo Oriente – lançando loas à paz, mas promovendo a guerra.

Para melhor impor o inaceitável, Macron reduz de forma desonesta e manipuladora as opções dos povos dos países que actualmente integram a União Europeia à falaciosa escolha entre o nacionalismo da extrema-direita xenófoba e reaccionária e o dito «europeísmo» sob o qual se esconde o federalismo, o neoliberalismo e o militarismo – iludindo, afinal, o muito que une uns e outros, veja-se a aliança entre a direita e a extrema-direita no governo austríaco, que preside neste momento ao Conselho da UE.

Macron sabe ao que vem. Apresentando serviço, proclama profusamente por «mais» UE, sempre escondendo que as suas propostas representam uma ainda mais grave regressão de direitos; o agravamento das desigualdades sociais e das assimetrias de desenvolvimento entre os países; o reforço do domínio político e económico das grandes potências; uma maior agressão à soberania nacional, com o consequente esvaziamento da democracia; a intensificação do militarismo, da ingerência e da agressão; a ambição de bloco político-militar imperialista.

O maior temor dos inconfessáveis interesses que Macron protagoniza é que os povos ganhem uma maior consciência que a UE e as suas políticas ditadas pelas suas grandes potências e determinadas pelos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros estão em confronto com os direitos e aspirações dos trabalhadores e dos povos e que é possível um outro rumo para a Europa, de cooperação entre Estados soberanos e iguais em direitos, de progresso social, de paz com os povos do mundo.

 



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