• Manuel Pires da Rocha

Hiroxima é cantada sob a forma de aviso, de lição, de bandeira
A Rosa de Hiroxima

«Pensem nas crianças, mudas telepáticas. Pensem nas meninas, cegas inexactas. Pensem nas mulheres, rotas alteradas. Pensem nas feridas como rosas cálidas. Mas, oh, não se esqueçam da rosa, da rosa! Da rosa de Hiroxima, a rosa hereditária, a rosa radioactiva, estúpida e inválida. A rosa com cirrose, a anti-rosa atómica. Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada». O poema «Rosa de Hiroxima» escreveu-o Vinicius de Moraes, mas a denúncia foi amplificada pelos brasileiros Secos & Molhados, na voz de Ney Matogrosso.

«Rosa de Hiroxima» é uma das muitas obras musicais, acompanhadas ou não por palavras, que contrariam a tese do «mal necessário» com que a propaganda dos EUA justificou (e justifica) os massacres de Hiroxima e Nagasáqui. Em 6 de Agosto de 1945, os Estados Unidos da América escolheram a população civil como alvo principal. «Little Boy», a bomba que viria a vitimar cerca de 140 mil habitantes de Hiroxima, explodiu a 500 metros do solo, lançada pelo bombardeiro Enola Gay («carinhosamente» baptizado com o nome da mãe do piloto da macabra missão). Este mesmo Enola Gay é o protagonista da canção de Orchestral Manoeuvres in the Dark, editada em 1980, num esforço mais de denúncia da ameaça nuclear, num momento histórico – o da Guerra Fria – de afirmação das intenções bélicas dos EUA e seus aliados da NATO. Se precisássemos de um rótulo para classificar Enola Gay, diríamos tratar-se de uma canção de intervenção disfarçada de pop britânico, viajando entre a serenidade no cockpit do avião e o horror provocado nas ruas de Hiroshima: «this kiss you give, it's never ever gonna fade away» (o teu beijo nunca vai desvanecer-se) é, afinal, o beijo de fogo no rosto de Hiroshima, envolvido nas palavras «isto nunca deveria ter terminado assim».

No segundo a seguir ao da explosão atómica, em Hiroxima soube-se que os EUA tinham inventado um novo som para a banda sonora das guerras. Foi esse som inimaginável que Krzysztof Penderecki procurou fixar em «Pranto Para as Vítimas de Hiroxima» (1960). Diz, da sua obra, o compositor: «A peça vivia apenas na minha imaginação, de uma forma algo abstracta. Quando Jan Krenz a gravou e eu pude então ouvi-la enquanto performance real, fiquei surpreendido pela carga emocional do trabalho. Considerei que seria um desperdício condená-lo ao anonimato - decidi dedicá-lo às vítimas de Hiroxima». São 52 cordas: violinos, violas, violoncelos e contrabaixos numa escrita surpreendente, na fronteira do ruído. Música irreal, rompendo os cânones da interpretação musical, do mesmo modo que Hiroxima dizimada rompeu a própria noção de flagelo. Nos cerca de nove minutos em que o Pranto se desenrola, os instrumentos sucedem-se em ondas sonoras iguais às «camadas» de sofrimento por que passou o povo de Hiroxima, do espanto à dor, do medo à morte, da existência ao pó.

Muitos mais cantaram Hiroxima, sempre ao contrário da historiografia dominante, mil vezes difundida e mil vezes repelida pelos mais diversos cantos - desde a partitura de John Adams e Peter Sellars («Doctor Atomic») à composição «Peace on Earth», de John Coltrane, passando pelo canto avisado de Pete Seeger e dos Byrds («I Come and Stand on Every Door», sobre um poema de Nazim Hikmet), de Paul McCartney e Yoko Ono («Hiroshima Sky Is Always Blue»), dos Baron Rojo («Hiroshima»), de Robert Wyatt («Foreign Accents»), de Sílvio Rodriguez («Cita Com Los Angeles»), de Francisco Fanhais («Cantata da Paz», num poema de Sophia de Mello Breyner Andersen), entre muitos outros.

Uma e outra vez, desde 6 de Agosto de 1945, Hiroxima é cantada sob a forma de aviso, de lição, de bandeira. De todas as coisas que «nunca mais», Hiroxima é das primeiras. E Georges Moustaki diz porquê: «Por todos os sonhos calcados / pela esperança abandonada / em Hiroxima, ou mais além / talvez ela venha amanhã – a Paz!».




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