• José Carlos Faria

O Teatro promove valores de consciência crítica, emancipação e liberdade
O Teatro em Festa

O Teatro, há que sublinhar, tem estado presente na Festa do Avante! desde o primeiro momento. A partir de 1986, passou a contar sempre com um pavilhão próprio, o qual, ao longo dos anos, foi alvo da introdução de sucessivos melhoramentos nos seus diversos espaços (palco, camarins, bar café-concerto, átrio); é o «Avanteatro», que ganhou merecido prestígio, pela qualidade da programação quer de companhias históricas como de jovens projectos de criação, apresentando o Teatro na Festa, fazendo a festa do Teatro e não só.

Neste ano, de novo as artes performativas, na multiplicidade das suas vertentes, encontram ali uma importante divulgação perante audiências de trabalhadores, o público ideal como o designava Brecht – teatro, teatro documental, espectáculos para a infância, representações de rua, marionetas, mas também dança, música e cinema. O «Avanteatro», confirmando, na prática, ser o Teatro a mais directa das Artes, que faz apelo a todas elas e as irradia, já acolheu também ópera, recitais de poesia, oficinas, exposições, debates, e ainda o assinalar de efemérides marcantes.

Num quadro de luta caracterizado por vivos protestos devido à desorçamentação continuada e subfinanciamento crónico por parte do Ministério da Cultura no apoio às Artes, velha política agora maquilhada de pretenso diálogo com os artistas e agentes culturais, destaca-se o debate «Um por cento para a Cultura – construir um Serviço Público de Cultura», medida imprescindível e incontornável.

Apesar que fora do «Avanteatro», importa, no entanto, dar nota da exposição e récitas, pelo Cendrev, dos Bonecos de Santo Aleixo, jóia de tradição oral e testemunho fundamental da vitalidade da Cultura Popular Portuguesa – fascinante e imperdível!

O Teatro é efémero, todavia a ficção que engendra refecte o real, projectando o imaginário, veículo de premonições e de memórias, históricas e sensíveis. A trama das estórias da História tecidas pelo quotidiano. Marx, estudioso nas suas análises, de Shakespeare e da tragédia e comédia gregas, referia que «não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência».

O Teatro, comunidade de iguais reunidos em assembleia, emanou da Democracia e tornou-se um seu vector essencial justamente pelos valores que promove de consciência crítica, emancipação e liberdade. Não por acaso, as ditaduras dedicam-lhe sempre tormentos de proibições e repressão feroz. Portugal, com quatro séculos de Inquisição e meio século de fascismo, sofreu bem fundo esse estigma. Hoje em dia a tirania provém da alienação gerada pela sociedade do espectáculo e é exercida pelo mercado através de uma censura económica.

Karl Marx, cujo bicentenário se celebra em 2018, sublinhava que a produção capitalista é contrária à arte e à poesia e enaltecia o labor das gentes do palco: «Um actor, por exemplo, ou mesmo um palhaço, são pois operários produtivos, se trabalham ao serviço de um capitalista (de um empresário) a quem dão mais em trabalho do que o que recebem em forma de salário».

Mas o «Avanteatro» revela o exacto oposto: alegria e a fraternidade partilhadas que ilustra o entendimento, ainda e sempre, de Marx: «Só a educação dos sentidos humanos e espirituais do homem social, isto é, o homem em sociedade, permitiu o nascimento e desenvolvimento das Artes».

E o «Avanteatro» é o Teatro em festa!




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