• Luís Carapinha

Em dois anos, as despesas militares dos EUA aumentaram uns brutais 15%
O orçamento cósmico

O orçamento militar base dos EUA para o ano fiscal de 2019, assinado por Trump este mês, ascende à colossal cifra de 717 mil milhões de dólares. O maior de sempre do Pentágono e o mais célere em 40 anos a tramitar pelo Congresso, apoiado por ampla maioria republicana-democrata. Alargando o papel do Pentágono e o militarismo no poder norte-americano.

Em dois anos, as despesas militares dos EUA aumentaram uns brutais 15% e Trump vangloria-se do maior investimento militar na história moderna dos EUA. Fasquia que deverá continuar a subir, acenando-se com o patamar dos 800 mil milhões de dólares. Muito à frente no ranking de despesas militares mundiais, em 2001 o Pentágono contava com um orçamento inicial inferior a 300 mil milhões de dólares, o que dá ideia do salto armamentista desde o início do século. Washington gasta muito mais do que a China e a Rússia juntos, os dois países que identifica como principais ameaças à sua dominação mundial. Os gastos militares combinados da NATO superam o de todos os restantes países do mundo, facto, só por si, bem elucidativo sobre quem ameaça a paz mundial.

As verbas aprovadas correspondem a um mar de novas aquisições de material de guerra e investimento belicista, incluindo na guerra cibernética, sendo assumida como prioridade a modernização das armas nucleares, em que os EUA estão apostados em baixar o limiar da sua possível utilização. É contemplada a criação de um Comando Espacial e o reforço das verbas tendo em vista os planos de militarização do espaço. Os EUA rejeitam a proposta da China e Rússia de um tratado de não militarização do cosmos. Tal lobo em pele de cordeiro, Trump invoca a ameaça externa para clamar pelo «domínio americano» no espaço.

De Pequim soa o aviso: aos EUA «não deve ser permitido o domínio do espaço cósmico»; «a sua ambição não é apenas atingir um alvo terrestre a partir do espaço», mas estabelecer uma «hegemonia absoluta e a capacidade de conquistar qualquer outro grande país a partir do espaço». Com o anúncio da criação, como ramo autónomo das FA, de uma Força Espacial, «os EUA lançam uma corrida às armas no cosmos», sublinha ainda o editorial do GT (10.08.2018).

Já em plena campanha para as eleições intercalares de Novembro para o Congresso – apresentadas, no contexto da arrastada guerra intestina que agita a classe dirigente, como decisivas para um possível impeachment ou uma reeleição em 2020 –, Trump exalta o elo fundamental entre economia e militarismo. No pano de fundo da deriva interna reaccionária, da desregulamentação financeira e de um substancial corte fiscal para o topo dos mais ricos, da investida contra os direitos sociais e laborais, da incisiva retórica e campanha anti-imigração, enfim, do assalto do America First na cena internacional – cuja pedra de toque é o ensaio de uma nova política geral de contenção da China –, o inquilino da Casa Branca canta loas ao «genuíno boom económico», à criação de milhões de novos empregos, à subida dos salários e do investimento; aos biliões de dólares que estão a ser – na realidade – extorquidos de todo o mundo para a economia dos EUA...

Debaixo da arrogância e do verniz triunfalista esconde-se a trajectória de declínio e a insanidade aventureirista. Demagogia populista que suscita paralelos históricos de má memória. Sobretudo quando o imperialismo norte-americano surge ainda mais como o grande vilão internacional e principal inimigo e ameaça das aspirações a um mundo de paz e progresso social.




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