- Edição Nº2336  -  6-9-2018

Antes de Ialta

Um dia destes, o canal História, acessível por cabo, transmitiu um programa intitulado «Da Segunda Guerra Mundial à Guerra Fria» que, a partir da conferência da Crimeia em Fevereiro de 45, historiava um pouco as relações entre os chamados «aliados ocidentais» e a União Soviética. Continha informações globalmente positivas, não excessivamente marcadas por versões euroatlânticas, mas insuficientes porque o entendimento da disposição das democracias burguesas do Ocidente europeu perante a União Soviética implica algum recuo no tempo até aos anos anteriores a 39. Há poucas semanas estávamos na segunda metade do mês de Agosto, e nesses dias é costume, desta vez talvez falhado, que a imprensa de missão anticomunista recorde o pacto germano-soviético de Agosto de 39 que segundo ela teria permitido a Hitler desencadear a Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polónia. Trata-se, como aliás não surpreende, de uma calúnia anti-soviética: o pacto então assinado por Ribbentrop e Molotov, ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e da URSS, foi apenas um acto de legítima defesa perante a disposição das democracias do Ocidente europeu, Grã-Bretanha e França, de proporem à Alemanha nazi um entendimento que deixasse Hitler de mãos livres e costas descansadas para cumprir o que deveria ser considerado como na sua missão histórica: a destruição da União Soviética.

O embaixador Evans

Este entendimento das coisas não é consequência de uma abordagem ficcionada do que ocorreu na Europa no primeiro semestre de 39: a discreta proposta das «democracias ocidentais» à Alemanha para uma amigável pacificação das suas relações, verdadeira aliança táctica de modo a que Hitler pudesse tranquilamente fazer o que dele mais se esperava, não é lucubração extravagante de uma cabeça comunista: foi claramente referida em testemunho do então embaixador dos Estados Unidos em Moscovo, Evans de seu apelido. No quadro assim devolvido à verdade histórica, o tão recriminado pacto germano-soviético surge integrado na verdade: iniciativa de legítima defesa, jogada praticamente obrigada no xadrez da política internacional já então à beira do abismo. Aliás, já a muito anterior condescendência dos aliados perante o rearmamento alemão em frontal violação do Tratado de Versailles se explica pelo secreto desejo de uma Alemanha militarmente forte que pudesse destruir o tumor comunista que da URSS ameaçava expandir-se para a Europa e para o mundo, e não foi decerto por acaso que esse rearmamento contou com o fortíssimo apoio do capitalismo norte-americano. Tudo isto faltou no programa do «História» e na verdade nem teria de lá estar em vista do seu título, mas não será de mais reconhecer que se trata de um dado de fundamental importância para o bom entendimento das coisas. Pelo que aqui fica na esperança de que seja um útil complemento.



Correia da Fonseca