- Edição Nº2336  -  6-9-2018

O golpe fascista da CIA contra Allende foi há 45 anos

Há 45 anos o Chile acordou para um dia negro da história. No dia 11 de Setembro de 1973, um golpe militar com o envolvimento directo, ao mais alto nível, dos Estados Unidos depôs o governo progressista da Unidade Popular de Salvador Allende.

A traição do alto-comando militar, em particular do então comandante do Exército, general Pinochet, e a evidente desproporção de forças ditaram o êxito da intentona. A reacção e grande burguesia chilenas viam coroadas de sucesso a intensa campanha desestabilizadora contra o inédito processo de transformações que chegara a ser apelidado de «via chilena ao socialismo».

Não prometera Nixon fazer «guinchar a economia chilena», ainda Allende não tinha sido definitivamente eleito pelo Congresso, no seguimento da vitória nas urnas por maioria relativa de 4 de Setembro de 1970? Cercado em La Moneda, na manhã de 11 de Setembro, o presidente Allende rejeita o ultimato da Junta militar. Não renuncia e não se rende. A sua última mensagem ao país, pronunciada pouco antes de o palácio presidencial começar a ser selvaticamente bombardeado pelos golpistas, fica para a história como exemplo imperecível de dignidade e confiança no futuro. «Pagarei com a minha vida a lealdade ao povo (…), mas os processos sociais não se podem deter nem com o crime, nem com a força. A história é nossa e é feita pelos povos».

Iniciava-se a contagem de 17 longos anos de dura resistência à ditadura sangrenta do general Pinochet. Até ao forçoso processo de «transição democrática» condicional e à entrega do poder presidencial, em 1990, vitória arrebatada através da luta persistente do povo chileno pela liberdade e a democracia, sempre acompanhada da expressão viva da solidariedade internacionalista. Após o fim da ditadura, Pinochet permaneceu chefe das Forças Armadas e depois senador vitalício, cargo por si criado mas a que teve que renunciar em 2002, escapando ao julgamento.

O processo em que foi acusado de sequestro e assassinato de presos políticos foi vergonhosamente arquivado, sob justificação do seu já estado de demência. Mas o extenso rol de crimes da ditadura nunca poderá ser apagado. Bastando citar as prisões arbitrárias em massa e o uso da tortura, as execuções sumárias de comunistas e outros antifascistas, a inenarrável crueldade dos crimes do estádio de Santiago convertido durante dois meses em campo de concentração (hoje estádio Victor Jara), o itinerário da Caravana da Morte, e a morte suspeita de Neruda. Combinados com o regime de férrea censura, a proibição dos partidos opositores, a perseguição da actividade sindical e a repressão laboral.

Golpe e Plano Condor

O golpe de 11 de Setembro e o fascismo chileno com Pinochet inserem-se no panorama da sinistra Operação Condor, levada a cabo pelo imperialismo norte-americano na América do Sul nos anos de 1970 e 1980, convertendo-se num seu expoente. São os anos de chumbo em que o mapa das ditaduras fascistas e da política de terror abarca grande parte da América do Sul, do Brasil e Bolívia ao Chile e Argentina.

O plano arquitectado por Kissinger, tendo como núcleo ideológico o anticomunismo, funcionou como instrumento subversivo e de terrorismo de Estado, visando o reforço do domínio incontestado do imperialismo dos EUA no seu quintal das traseiras, mediante o apoio das oligarquias nacionais e dos seus esbirros.

Passara uma década desde que Washington iniciara o bloqueio a Cuba em resposta ao triunfo da Revolução Cubana que, com o apoio da URSS, havia derrotado a invasão contra-revolucionária na Baía dos Porcos e proclamara o seu carácter socialista. O perfil terrorista da Operação Condor e das ditaduras fascistas na América Latina é inseparável da sua essência de classe e objectivos económicos, numa fase que coincide, no contexto internacional mais amplo da «Guerra Fria», entre outros factores, com o atoleiro da guerra no Vietname, até hoje a maior derrota militar dos EUA.

A ditadura chilena torna-se, na década de 1980, na montra da aplicação da cartilha económica da escola de Chicago de Milton Friedman. Sob o poder das baionetas, o Chile de Pinochet é um dos pioneiros do neoliberalismo à escala mundial, pontificando as privatizações em massa, a política de rigidez monetarista e financeirização e o curso de desresponsabilização social do Estado e precarização das relações laborais. No pano de fundo do processo de super-concentração da riqueza e do consequente inaudito aumento da polarização e desigualdades sociais e do empobrecimento de largas camadas da população chilena, dá-se a emergência de uma mais poderosa classe da alta burguesia, com maior integração nos circuitos e relações dominantes da economia mundial.

Detentor de uma das grandes fortunas do país, o actual presidente chileno Pinera, vencedor das últimas presidenciais e regressado ao poder este ano, depois de já ter cumprido um mandato entre 2010 e 2014, é um representante de proa destes sectores. E o texto constitucional vigente, apesar de importantes alterações, é ainda o da ditadura.

Cortar pela raiz

A conspiração golpista no Chile sabia ao que vinha. Apesar de quase três anos de campanha de demonização e desestabilização do governo da Unidade Popular, da promoção da violência pelas mãos da extrema-direita e do radicalismo de extrema-esquerda, da prática recorrente de assassinatos selectivos e actos terroristas, incluindo atentados bombistas contra infra-estruturas económicas, o imperialismo estava ciente do importante apoio popular ao governo de Allende.

Tanto era assim que o primeiro comunicado divulgado pela Junta golpista, na manhã do golpe, referia cinicamente no seu 3.º ponto: «Os trabalhadores do Chile podem ter a certeza que as conquistas económicas e sociais que alcançaram até à data não sofrerão modificações no fundamental.» Estas conquistas foram o resultado da aplicação do programa do governo da Unidade Popular, apontando a mudanças estruturais.

No breve período da sua existência, o governo de Allende logrou avanços sensíveis da reforma agrária e da erradicação do latifúndio. A banca comercial foi nacionalizada, assim como empresas e sectores estratégicos da economia – cobre, ferro, carvão, cimento, indústria química, papel, têxteis e comunicações – , conformando-se um influente sector empresarial de propriedade social. Que incluía ainda a energia (electricidade e petróleo) que já se encontrava no essencial nas mãos do Estado, tal como os caminhos-de-ferro. No plano social, foi dada prioridade à educação e combate ao analfabetismo; as pensões de reforma foram aumentadas e o sistema de segurança social alargado.

O imperialismo não esperou, contudo, pelas primeiras medidas do governo popular para agir. Allende, um dos fundadores do Partido Socialista do Chile, era um marxista assumido. Tornara-se, à quarta tentativa, o primeiro marxista a aceder ao poder pela via eleitoral. O apoio do PCC fora fundamental para o triunfo nas presidenciais de 1970 e os comunistas representavam a segunda força, em peso eleitoral, da coligação Unidade Popular. Em Washington era muita a inquietação. Era preciso impedir o surgimento de uma «segunda Cuba» e a propagação do «vírus comunista» no Cone Sul.

Exemplo para hoje

A informação já desclassificada comprova largamente que a CIA lançou uma vasta operação encoberta para tentar impedir, numa primeira fase, a chegada ao poder de Allende – incluindo o assassinato do general René Schneider pela organização de extrema-direita Pátria e Liberdade – e, depois, para minar a sua gestão, assegurando o caldo necessário para o sucesso do golpe que viria a executar a 11 de Setembro.

Escassos dias depois do início de funções do novo governo chileno, o presidente Nixon confessava que «a nossa principal preocupação (…) é a possibilidade de que Allende se consolide e que a sua imagem perante o mundo seja um êxito». Segundo o próprio Kissinger – que há dias participou no elogio fúnebre ao senador McCain –, nos anos seguintes os EUA dedicaram-se à missão de estrangular a economia chilena.

Foram congelados os créditos bancários e a ajuda económica. Multiplicaram-se as acções de sabotagem da economia e a promoção de acções de protesto e desobediência de que são exemplo as marchas das caçarolas. O imperialismo apostou na exploração das reivindicações e descontentamento de sectores ligados à área dos transportes, distribuição e comércio. Os constrangimentos criados na economia, num quadro de expansão monetária e controlo de preços, provocaram intencionalmente a escassez de produtos e uma espiral inflacionária.

Num clima de efervescência social acentuam-se as divisões entre as forças da coligação governamental. O exército está em alvoroço. O imperialismo logra afastar o general Prats – assassinado mais tarde no exílio pelos serviços secretos da ditadura –, substituído no comando do Exército por Pinochet. A correlação de forças evoluía num sentido favorável ao golpe. Que irrompe na madrugada de 11 de Setembro com a tomada de Valparaíso pela Marinha, a coberto da participação nas manobras navais UNITAS, organizadas pelos EUA. Parte substancial da direcção do Partido Democrata-Cristão e da direita parlamentar dá a benção ao golpe.

Revisitar os meandros e as lições do golpe fascista chileno é particularmente oportuno no quadro actual, marcado pela profunda contra-ofensiva imperialista na América Latina. Salta à vista que o guião desestabilizador aplicado no golpe chileno é em grande medida replicado na guerra económica e campanha subversiva dirigidas contra a Venezuela bolivariana. Washington volta hoje a apregoar, com a maior desfaçatez, as virtudes da Doutrina Monroe.

Dirigentes progressistas, casos de Lula e Correa, alertaram para a existência de um novo Plano Condor. O ataque à Venezuela e o golpe no Brasil são peças essenciais da acção concertada e incisiva contra os processos progressistas e de cooperação latino-americanos. Não há que o subestimar. Na certeza de que, fruto da luta dos trabalhadores e dos povos, «mais cedo do que tarde se voltarão a abrir as grandes alamedas, por onde passa o homem livre para construir uma sociedade melhor».



Luís Carapinha