- Edição Nº2342  -  18-10-2018

Reconhecimento e celebração para além do Nobel

EVOCAÇÃO Passados precisamente 20 anos, o salão do Centro de Trabalho Vitória voltou a transbordar, para homenagear José Saramago, numa sessão evocativa da atribuição do Prémio Nobel da Literatura.

A primeira e até agora única distinção atribuída pela Academia Sueca a um autor português foi anunciada a 8 de Outubro de 1998, uma semana depois de tomada a decisão. O prémio seria entregue a José Saramago no dia 10 de Dezembro, em Estocolmo.
O escritor comunista recebera a notícia em Frankfurt, no final da grande Feira do Livro. Regressou a Lanzarote, para onde se mudara em 1993, depois de o governo de Cavaco Silva e Sousa Lara ter vetado a candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu.
Chegou a Lisboa no dia 13, para a cerimónia de entrega das Chaves da Cidade. Antes, já nos Paços do Concelho, reuniu-se com o Secretário-geral do PCP e outros dirigentes. Na tarde do dia seguinte, esteve no CT Vitória, onde o Partido lhe prestou homenagem.
Terminada a sessão, José Saramago foi ao Terreiro do Paço, expressar apoio aos trabalhadores que ali participavam numa vigília contra o «pacote laboral» promovida pela CGTP-IN. Mais tarde, no Centro Cultural de Belém, teve lugar uma homenagem nacional.
O relato teve destaque no Avante! de dia 15. Nessa mesma primeira página dava-se as boas vindas a Fidel Castro, que iria estar em Portugal no fim-de-semana, para a Cimeira Ibero-Americana.
A evocar os 20 anos passados desde esses dias memoráveis, o PCP promoveu uma sessão este domingo, dia 14, em Lisboa, no histórico centro de trabalho da Avenida da Liberdade, com intervenção do Secretário-geral. A companheira de José Saramago, Pilar del Rio, outros convidados, alguns camaradas de ofício e de combates do escritor, dirigentes do Partido e muitos outros militantes encheram por completo o amplo salão e também o hall-livraria, onde foi dado destaque às obras do homenageado.
A sessão iniciou-se com um momento cultural, que fora anunciado sem detalhes. Revelada a surpresa, a cantora e compositora Paula Oliveira, acompanhada ao piano por Daniel Schwetz, interpretou seis das Canções Possíveis. Como explicou com emoção, neste seu projecto, que resultará em breve num disco, dá música e voz a versos de José Saramago, publicados pela primeira vez em 1966, no livro Os Poemas Possíveis. Sempre muito aplaudida, Paula Oliveira fechou com Um Homem na Cidade, de Ary dos Santos, dedicando a canção ao «homem livre» laureado em 1998.

Com alegria e orgulho

Jerónimo de Sousa começou por recordar como «nesta sala, faz agora 20 anos, num ambiente de efusiva alegria e com um justificado sentimento de orgulho, os comunistas portugueses festejaram a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e o envolveram num simbólico e fraterno abraço de homenagem e reconhecimento».
Suscitou fortes aplausos, quando disse que «aqui regressamos» para evocar Saramago, «desta vez, sem a sua presença física, mas connosco, porque foi essa sempre a sua vontade e decisão até ao dia em que nos deixou por imperativo da lei da vida que nos faz mortais e fazendo jus às suas palavras nesse inesquecível Outubro de 1998 que ecoam ainda na nossa memória de companheiros de combate por um mundo melhor: “Eu hoje com o prémio posso dizer que, para ganhar o prémio, não precisei de deixar de ser comunista.”».
José Saramago «não precisou de se esconder, nem se quis esconder» e «a sua notável e reconhecida obra, para lá do Nobel, expressão de um sensível e humano olhar sobre os problemas do homem e da humanidade e o seu destino (futuro), seria outra sem a visão do mundo dessa sua condição que com orgulho assumiu». Sem essa condição de comunista, «a massa humana de muitos dos seus livros não se moveria com o mesmo fulgor e não se sentiria em muitos deles o penoso, trágico, exaltante, contraditório, luminoso, sombrio, incessante movimento da história», salientou o Secretário-geral do Partido.
Referindo-se ao significado da atribuição do Nobel a Saramago, Jerónimo de Sousa lembrou-o como «contributo para afirmação da literatura de língua portuguesa no mundo e para o reconhecimento do português como língua de referência importante na cultura mundial». Outorgado a um autor que «abriu novas portas à literatura portuguesa no plano internacional», o Prémio Nobel «transformou José Saramago num embaixador da cultura e da nossa língua», «contribuindo para tornar a nossa literatura uma referência respeitada e permanente, no contexto da cultura literária universal». Mas, observou, essa atribuição «foi altamente prestigiante não apenas para Saramago e para nós, portugueses, mas também para o próprio Prémio».
«Bonita e profundamente emotiva» foi «a festa que aqui realizámos há 20 anos» e que «queremos, podemos e devemos prolongar, lendo e relendo, saboreando e reflectindo sobre cada página» da obra de «um escritor que veio do povo trabalhador, a quem amou e foi fiel», apelou Jerónimo de Sousa.
O Secretário-geral do PCP terminou a sua intervenção olhando José Saramago como «homem que, amando o seu povo, amou Abril» e assegurando que o Partido «jamais deixará de o celebrar, não apenas como um escritor maior da literatura portuguesa, mas também como o homem comprometido com os explorados, injustiçados e humilhados da terra, que assumiu valores éticos e um ideal político do qual não abdicou até ao fim da sua vida».

Autor maior contra o fascismo

«Sabemos quão vasta é a obra de José Saramago e quanto fica de fora destas palavras que são de reconhecimento e de celebração. Quantos romances, do Ano da Morte de Ricardo Reis à Jangada de Pedra, do Ensaio sobre a Cegueira a Todos os Nomes, do Homem Duplicado à Viagem do Elefante, quantos contos, quanta poesia, teatro e crónicas de uma obra ímpar, poderiam aqui ser recordados. Quanto aqui poderíamos trazer de opiniões avalizadas para lembrar, neste dia de celebração, a grandeza do universo próprio de José Saramago como um autor maior das nossas letras. Desse universo onde habitam os valores do humanismo, da solidariedade, da justiça que são, como muitos o reconhecem e proclamam, as traves mestras do seu discurso, construído também numa peculiar relação entre a ficção e a história em muitos dos seus livros. Uma obra que, sendo universal, não renega raízes nacionais, que busca também inspiração no que a literatura portuguesa tem produzido de melhor ao longo do tempo.
Celebramos os 20 anos do Prémio Nobel e nesta celebração evocamos o homem que desde muito jovem tomou lugar na luta pela libertação do seu povo e contra o fascismo.
Essa hidra venenosa – arma de arremesso contra o movimento operário – que agora retoma um inquietante levantar de cabeça, nuns sítios às claras e provocatoriamente, noutros a coberto de disfarces vários e novas aparências e alteradas características.»

Construtor de Abril

«Evocámos o militante comunista e escritor presente e interveniente activo, desde os idos anos 1940 nas mais diversas actividades da Resistência antifascista».
«Mas este também é o momento de evocar a empenhada e dedicada intervenção de José Saramago na defesa dos valores de Abril, que no concreto assumiu, nos seus propósitos de liberdade, transformação social, de efectivação dos direitos sociais universais, elevação cívica e cultural e independência nacional, e na defesa do projecto, em importantes combates políticos e eleitorais, nomeadamente como candidato ao Parlamento Europeu, em todas as eleições, desde 1987 a 2009.
O momento de evocarmos o intelectual empenhado e atento que conseguiu, através das palavras, subir ao povo, com ele comungar as agruras, a fome, as lutas e, nessa condição, afirmativa e corajosa, enfrentou aqueles que tentavam em desespero, na Revolução de Abril, um regresso ao passado sinistro da ditadura e se assumiu como um construtor de Abril, servindo os trabalhadores, o povo e o País.»

Jerónimo de Sousa
Excertos da intervenção na sessão de dia 14