• Anabela Fino

Cacarejando

A inenarrável cobertura dada pela comunicação social dominante ao movimento (?) dos coletes amarelos merece ficar para a história do jornalismo como um caso de estudo. Num país onde nunca faltaram nem faltam manifestações, seja de trabalhadores organizadas por sindicatos, seja das mais diversas organizações sociais, dos reformados às mulheres, dos jovens à cultura, mobilizando milhares e milhares de pessoas, a que regra geral os media pouca, quando não mesmo nenhuma, atenção dedicam, registou-se desta vez justamente o contrário.

Antecedendo o «acontecimento» que prometia «parar Portugal», não se poupou esforços de divulgação/promoção da coisa. Chegou-se não só ao ponto de publicar o mapa do País com o local e a hora das previstas concentrações, como de divulgar na íntegra o «manifesto» dos protestantes. Caso raro e nunca visto. Que o diga a CGPT-IN, por exemplo, que em cada 1.º de Maio promove (e realiza mesmo) pelo menos meia centena de manifestações sem que a imprensa se dê ao trabalho de referir pormenores, quanto mais de dar a conhecer na sua plenitude as reivindicações dos trabalhadores.

Mas se esta «promoção» feita pelos media de uma iniciativa promovida nas redes sociais não se sabe bem por quem já foi por si só insólita, tanto mais quando os apoios conhecidos eram de gente ligada à extrema-direita, mais insólita ainda foi a cobertura ao não acontecimento. Nunca tão poucos tiveram direito a tanto tempo de antena. Nem a tanta polícia, já agora.

Apesar de logo ao início da manhã se ter percebido que o «vamos parar Portugal» era um completo flop, os repórteres de serviço continuaram dia fora, certamente cumprindo ordens de quem define o que é notícia, a dar notícia da notícia que não havia. A certa altura até parecia um pouco encapotado apelo aos faltosos – estamos à vossa espera, portugueses! –, não faltando sequer «desculpas» para a visível redução das escassas hostes, como a referência às «idas à casa de banho» que alguém trouxe à baila. Patético, sem dúvida, mas também preocupante.

Dir-se-ia que até ao cair do pano do que pode ter sido um ensaio falhado sabe-se lá de quê se esteve à espera de «qualquer coisa». Seria à espera da violência que, mesmo marginal, seria transformada na notícia? Não sabemos, também não houve. Felizmente.

O certo é que foram dias e dias, horas e horas, de cobertura mediática de uma iniciativa a lembrar, com novos meios e velhas roupagens, a abortada manifestação da «Maioria Silenciosa», em 28 de Setembro de 1974, dos saudosistas do fascismo.

O certo é que foi visível a pena que o falhanço de sexta-feira, que alguns desejavam que tivesse sido negra, provocou nalguns sectores. Penas têm as galinhas, reza o ditado, mas a verdade é que, cacarejando, eles andam aí.



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