• Henrique Custódio

Coincidências

Se não fossem as televisões, ninguém tinha dado pelos «coletes amarelos» que se mobilizaram para se concentrar em Lisboa, Porto e Faro, no passado sábado, sob a consigna «Vamos parar Portugal». Não pararam nada mas, graças à pantalha, lá os vimos no Marquês de Pombal e nos Aliados (em Faro só apareceu um), parcas dezenas por manifesta figura, a barafustar «pelo povo» que, afinal, não aparecia e parece que «não se indigna» (sic). Um fiasco, que se tornou monumental quando as televisões decidiram mostrá-lo ao País, expondo duas evidências: uma, a total irrelevância destes «coletes amarelos» que a direita em Portugal insiste em importar de França à força, outra, a irresponsabilidade dos três canais de televisão que, mais uma vez, quiseram transformar um não-acontecimento num assunto nacional.

Entretanto, por aquilo que as televisões mostraram, alguns pontos se destacaram nesta irrelevância.

Em Lisboa, os escassos «coletes» presentes no Marquês de Pombal eram liderados por três ou quatro autoproclamados ex-militares, todos ostentando boinas da tropa, todos tutuando-se por «camaradas» («mas do Exército!!!», esclareceu, aflito, um deles, temendo que parecessem comunistas), enquanto garantiam não ser «de partidos» e estarem ali «pelo povo» que, entretanto, criticavam por também estar, mas ausente desta «luta necessária», embrulhando o dito povo na balela salazarista dos «brandos costumes».

No Porto, além da bizarria de alguém aparecer, de colete, a bramar «contra os ladrões!» em nome dos «lesados do BES», os quarenta encoletados (segundo a RTP) foram mais prolixos, ora agredindo os operadores de câmara com mãos autoritárias a tapar as lentes, enquanto outros proclamavam que estavam ali «em paz e civismo», ora ostentando cartazes «contra as migrações» e recusando explicar o porquê da frase, porque a pergunta dos repórteres era «tendenciosa».

Este não-acontecimento foi coevo do convite que Manuel Luís Goucha fez a Mário Machado, criminoso da extrema-direita que já foi condenado e preso por assassínio racista, a ir ao seu programa «Você na TV» para ser entrevistado por Bruno Caetano na rubrica «Diga de sua (in)justiça». O Goucha fez marcha-atrás ao declarar «não pactuo» e «não me revejo» com «declarações perigosas» de Machado e o director de Informação da TVI, o inefável Sérgio Figueiredo, pôs-se em bicos de pés a garantir que «a informação da TVI defende a democracia acima de tudo, fazendo um jornalismo independente e forte», mas não explicando por que a TVI suspendeu a rubrica do Bruno Caetano, apesar do jornalismo «independente e forte».

Não há conexão material entre o projecto (falhado) dos «coletes» e a promoção da TVI da defunta extrema-direita. Mas há uma coincidência fatal.




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