- Edição Nº2359  -  14-2-2019

Na escuridão

Bem se sabe que não são os únicos: os únicos que trabalham longe dos nossos olhos, um pouco esquecidos até que um dia chegam más notícias que os fazem lembrados. Mas estes, os mineiros, parecem ser um pouco especiais porque dia após dia desaparecem da superfície da terra, enfiam-se em buracos solo abaixo numa espécie de mergulho na escuridão que sempre suscita alguma estranheza, se não instintiva recusa, a quase todos nós que melhor ou pior vamos vivendo à superfície, sob a luz do sol quando há sol, à tenuíssima luz das estrelas quando elas lá estão e não há tecto que nos separe delas. Não são os únicos que trabalham sem que os vejamos, mas são especiais, os mineiros. E um dia chegam notícias que não são boas, como as que a televisão nos trouxe no princípio da semana: foi em Aljustrel, Alentejo, que um acidente no interior da mina provocou a morte de um dos mineiros e ferimentos graves num outro. Não nos foi dito muito mais acerca de cada um deles, ao contrário do que muito provavelmente teria acontecido se se tratasse de crime de morte, desses perante os quais a televisão parece regalar-se. Do mineiro morto soubemos que tinha pouco mais de quarenta anos, mulher e filhos que agora sobreviverão como deus queira, como é costume dizer-se. O ferido grave é possível que sobreviva, não sabemos é em que condições físicas e outras.

«O mais precioso»

É português e privado o capital da empresa que explora as minas de Aljustrel, sendo inevitável, embora como hipótese desagradável mas admissível, relacionar o acidente com algum eventual abrandamento nas normas de segurança frequentemente relacionado com gestões avaras e por isso pouco empenhadas em garantir as mais seguras condições de trabalho. É que existe em algumas actividades industriais no nosso país o sentimento difuso de que uma gestão «económica» não tem de se preocupar excessivamente com a segurança dos trabalhadores, endossando para eles parte dos cuidados necessários a que nada de grave lhes aconteça. Neste caso da mina de Aljustrel já está em curso um inquérito visando o apuramento de causas e responsabilidades, mas bem se sabe que inquéritos destes não costumam resultar em límpidas conclusões. O mais importante, porém, será assegurar que em Aljustrel ou em qualquer outra actividade mineira não voltem a cair elevadores nem subsistam quaisquer outras circunstâncias propiciadoras de luto e indignações tardias. A uma importantíssima figura do século XX é atribuída a afirmação de que «o homem é o capital mais precioso». Que esse entendimento seja adoptado por quantos têm a responsabilidade de gestão no nosso país é não apenas fundamental como deve ser acompanhado pela supervisão pública.



Correia da Fonseca