O espectáculo dos The Last Internationale na Festa do Avante! de 2015 foi «fantástico», pelo que as expectativas para este ano são as melhores possíveis, afirmaram os dois artistas
THE LAST INTERNATIONALE
De volta à Festa onde a música é parte de algo maior

MÚSICA Delila Paz e Edgey Pires formam os The Last Internationale, banda nova-iorquina que actuou na Festa do Avante! em 2015 e volta este ano para um novo espectáculo. Ao Avante!, falaram das suas expectativas para esse concerto, do presente e do futuro do rock ’n’ roll e, também, do estado do mundo, que querem contribuir para transformar.

Delila Paz diz que «nós gostamos de tocar em todo o lado, divertimo-nos sempre imenso, mas na Festa do Avante! sentimos a diferença que a música pode fazer e como ela pode ser parte de algo maior». Para a vocalista, baixista (às vezes pianista) e co-compositora dos The Last Internationale, de origem porto-riquenha, «é diferente actuar numa Festa onde há um grande sentido de comunidade e uma forte consciência social, que não é apenas um festival de música».

O guitarrista Edgey Pires – o apelido vem-lhe do pai, português – concorda que tocar na Festa é uma «experiência diferente. Normalmente, num festival de música, esperas nos camarins ou vês as outras bandas, depois actuas e vais-te embora, é só isto. Mas na Festa do Avante! há muitas expressões culturais para conhecer. Quando lá estivemos, vimos desde artesãos a fazer cintos até murais políticos, e encontrámos espaços onde se podia comprar livros… É muito mais do que apenas música», recorda.

Mais do que «apenas música» é, aliás, o que faz esta banda de rock rebelde – como a caracteriza o lendário guitarrista de Rage Against The Machine, Audioslave e Prophets of Rage, Tom Morello, com quem os The Last Internationale estiveram recentemente em digressão pelos Estados Unidos –, que coloca nas suas canções as angústias e aspirações dos mais desfavorecidos, desde logo os trabalhadores, os imigrantes, os afro-americanos e os nativos, e o sonho de mudanças profundas, revolucionárias.

A sua discografia – composta pelo EP New York I do Mind Dying (2013), pelos álbuns We Will Reign (2014) e Soul on Fire (2019), pelos dois volumes lançados na Internet This Bootleg Kills... e por um vasto conjunto de canções e versões não editadas – é uma verdadeira crónica dos Estados Unidos da América contemporâneos. A sonoridade varia entre o rock pesado de atitude punk, incursões pelo blues e o soul e influências evidentes e mais do que assumidas do folk de Woody Guthrie e Pete Seeger.

Rock deve voltar
a ser perigoso

É precisamente a irreverência e rebeldia que marcam os The Last Internationale, que Delila e Edgey não vêem na generalidade das bandas de rock da actualidade. «Nós lemos as letras das canções e de que é que falam? Do Diabo, de whisky, de mulheres...», lamenta Delila, para quem este género musical «precisa de ser agitado». Edgey concorda e vai mais longe: «para mim, hoje, o rock é aborrecido, é o género menos criativo que anda por aí, sobretudo quando falamos das letras das canções e do comentário social». O hip-hop e o jazz, por exemplo, estão muito mais adiantados nesse aspecto, garante.

Para o guitarrista, um dos grandes problemas do rock actual é que já quase ninguém «fala sobre as suas experiências. Será que ninguém numa banda de rock foi despejado de casa? Ou esteve na prisão? Ou tem um primo que foi deportado? Se não escreves sobre isto não estás a reflectir a tua vida na música que fazes, e isso para mim é muito estranho».

O músico luso-descendente considera decisivo que o rock volte a ser «perigoso». Como? Edgey Pires explica: indo aos bairros nova-iorquinos, por exemplo, «dar guitarras aos putos e apresentá-los ao Muddy Waters outra vez. O rock precisa deste enquadramento operário, que é a sua verdadeira face». Assim, mais do que apelar às bandas para que sejam «políticas», devia começar-se por lhes dizer que reflectissem a sua própria experiência de vida na música que fazem, conclui.

Ligada a esta está outra lacuna que os dois músicos vêem no rock actual: a ausência de um sentido de comunidade. «Olhando para o hip-hop e até para o country cada um dos maiores nomes de cada um dos génerosajudou a lançar quatro ou cinco artistas», valoriza Edgey Pires, considerando ser esta, na música, a «semente da rebelião». Já o rock, lamenta, está muito «atomizado, individual», com cada banda a tentar ser «mais fixe do que a outra». Tom Morello é, a este respeito, uma das louváveis excepções: «é muito generoso, com as novas bandas e com os movimentos sociais.»

Medo e confusão

Numa conversa com músicos tão fortemente inseridos na luta social do seu país como são Delila Paz e Edgey Pires era inevitável que se falasse da actualidade norte-americana, das contradições que marcam os EUA, da presidência de Donald Trump e da influência de tudo isto numa banda tão assumidamente política como os The Last Internationale. «Há coisas terríveis a acontecer na América», começa por realçar Delila Paz, que não vê grandes diferenças a este respeito entre as presidências de Trump e de Obama: «as coisas não estavam bem antes e continuam a não estar. Por exemplo, para os imigrantes a vida não era fácil então, como não é hoje».

Quanto ao impacto de tudo isto na indústria da música, Edgey fala de uma realidade multifacetada: «Para nós, dar um concerto em Nova Iorque pode não ser igual a fazê-lo em Austin, Texas, e a nossa experiência com a rádio também é diferente nos EUA e aqui em Portugal. As mudanças a nível político e musical não foram assim tão significativas. A experiência com os fãs é muito boa, mas se falarmos de empresas discográficas, rádios e imprensa, ela já não é tão positiva.»

A canção Life, Liberty and the Pursuit of Indian Blood, por exemplo,assustou várias rádios, uma das quais se recusou a passá-la com a justificação de que tinha muitos ouvintes entre as comunidades nativas. «Nem a tinham ouvido, nem sabiam que ela falava precisamente da luta dos índios», lamentou Delila, falando da «confusão» e do «medo» que pairamem muitos sectores da sociedade norte-americana. Para Edgey, estas duas palavras caracterizam os EUA actuais, o que, garante, «não é um acidente, mas uma construção premeditada».

O guitarrista dos The Last Internationale deixou dois exemplos significativos de quão longe chegam a confusão e o medo, na música como na sociedade norte-americana.Numa ocasião, a banda participou com uma canção numa campanha promovida por movimentos sociais e foi pressionada pela organização a «moderar a linguagem» e a «mudar algumas palavras». Noutra vez, numa grande marcha em Washington com dezenas de milhares de pessoas que se assumiam como anti-imperialistas, muitos traziam cartazes de apoio à então candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton: «Não faz sentido, é uma contradição, não podes ser pelos direitos dos trabalhadores e ao mesmo tempo achares que a Hillary é defensora desses direitos, mesmo que sejam os das mulheres.» Quando passaram na manifestação da CGTP-IN do último dia 10 de Julho, Edgey e Delila não viram esse tipo de confusão. «É com isto que estamos confrontados nos EUA.»

Voltando ao concerto na Festa do Avante!, Delila assume que para a banda é muito bom poder fazer música e, ao mesmo tempo, estar «em ambientes onde as ideias se formam e a mudança floresce. É por isso que fazemos o que fazemos!»

Hinos e crónicas

Nas canções dos The Last Internationale encontramos autênticos hinos, cujos refrõespoderosos soam como estímulo para a luta. É o caso, por exemplo, de Workers of the World Unite!, que conta a história de um trabalhador preso porque aprendeu a usar a cabeça, organizando-se no sindicato e passando toda a vida nos piquetesa apelar:Trabalhadores, uni-vos / Não desistam da luta / Trabalhadores do mundo, uni-vos!. Em Battlegroud, garante-se que Até estarmos livres / não arredaremos pé nem mudaremos / até estarmos livres / continuaremos adiante ao som da marcha.

Tal como as suas referências folk, Edgey e Delila são cronistas particularmente atentos de um país profundamente desigual e injusto. Em Killing Field, denunciam a violência policial tão característica da sociedade norte-americana: andas com a cabeça no chão / falas alto mas não fazes um som / não podes falar com o poder no campo da morte. / Pensas que o «flower power» os pode parar? / Bang bang bang aí estáa polícia!. Em Trayvon Martin Ballad retratam uma história verídica: Ele era Trayvon Martin / com apenas 17 anos / outro garoto negro assassinado / nos velhos Estados Unidos da América. Outros artistas, como Bruce Springsteen, Justin Timberlake, Beyoncé ou Jay Z, também dedicaram canções ao jovem afro-americano.

Em Devil’s Dust canta-se a luta diária pela sobrevivência e o sonho de uma vida melhor: Às vezes pergunto-me / onde estão os nossos sonhos / e todas as coisas que queríamos / todo o tempo que perdemos / para juntá-los novamente. A dureza da vida de quem nasceu pobre é espelhada em Hard Times: nasci pobre / fui criado pelo zoo / (…) o mundo é tão frio / e tento avançar de qualquer maneira / este velho mundo cruel / avançareide uma forma ou de outra.

Para além dos temas originais – e muitos mais podiam ser citados, igualmente poderosos – os The Last Internationale têm também muitas versões, não menos reveladoras do seu carácter insubmisso. Uma delas, de Woody Guthrie, é Deportees, que recorda a queda de um avião, em 1948, com 28 imigrantes mexicanos a bordo, expulsos pelas autoridades norte-americanas: Adeus ao meu Juan / adeus Rosalita / «Adios mis amigos», Jesus e Maria / não tinham nome quando entraram no grande avião / tudo o que lhes chamarão será «deportados». Mais de sete décadas depois dos trágicos acontecimentos magistralmente descritos por Guthrie, a canção está tristemente actual, o que não terá sido alheio à decisão da banda nova-iorquina de a reinterpretar.

Não, o espírito rebelde do rock não morreu!




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