Nos concertos sinfónicos da Festa participam anualmente dezenas de milhares de pessoas
Concerto Sinfónico «Do Romantismo ao Modernismo»

MÚSICA Uma certa continuidade na coprodução/direcção musical do concerto inaugural da Festa do Avante! – que já se tornou um hábito e também uma exigência natural do amplo público que a ele costuma assistir todos os anos –, permite certamente ao maestro Vasco Pearce de Azevedo ter uma opinião privilegiada sobre o significado e a importância dos concertos realizados no Palco 25 de Abril.

Por isso nos pareceu oportuno aproveitar um dos ensaios da orquestra, que prepara o espectáculo da noite de sexta-feira no palco 25 de Abril, para questionar Pearce de Azevedo sobre os meandros que rodeiam a realização de tais concertos.

A palavra a Vasco Pearce de Azevedo.

Avante! – No conjunto de concertos de abertura da Festa do Avante! em que a sua valiosa colaboração (à frente da Orquestra Sinfonietta de Lisboa) se vem verificando ao longo dos anos, quais terão sido aqueles cuja sua memória reteve como dos mais significativos êxitos por parte da orquestra?

Vasco Pearce de Azevedo – De facto, a participação da Sinfonietta de Lisboa no concerto de abertura da Festa do Avante! tem lugar já desde 2004 (desde esse ano, só não participámos nos de 2008, 2009 e 2011), pelo que já são muitos aqueles que tenho na minha memória para poder comparar. É difícil destacar um único concerto, pois quer-me parecer que todos foram sempre muito bem recebidos pelo público; mas talvez possa assinalar como particularmente significativos os concertos de 2007 e 2013, nos quais apresentámos respectivamente as obras Cantata para o 20º. aniversário da Revolução de Outubro de Prokofiev e a Sagração da Primavera de Stravinsky.

Em continuação da sua resposta, gostaríamos de saber, ainda, qual a sua experiência mais marcante (ou mesmo mais insólita) no que toca à especial receptividade e êxito junto do público?

Foi sem qualquer sombra de dúvida o momento em que entrei em palco para dirigir a música de John Williams para o genérico do filme Guerra das Estrelas, que era o encore do concerto de 2015. O programa do concerto de abertura desse ano, intitulado «A Festa vai ao cinema», tinha sido totalmente dedicado à música para filmes. E quando eu entrei em palco para a última peça do concerto (que, como se tratava de um encore não estava anunciada no programa do concerto) e mostrei ao público o sabre de luz devidamente iluminado, a reacção deste foi semelhante à de um concerto de rock ou de um estádio de futebol no momento em que as equipas entram em campo! Absolutamente inesquecível!!

Certamente que, na escolha do repertório de cada concerto – na qual participam, além do maestro, outros elementos da Comissão de Espectáculos da Festa –, há determinadas preocupações tendentes a contemplar, no melhor sentido da palavra, o carácter heterogéneo das dezenas de milhares de espectadores (muitos deles não-melómanos) situados frente ao palco, bem como outros factores mais directamente relacionados com a própria situação logística de uma actuação ao ar livre. Mas o que mais nos interessa questionar é se, nessa escolha criteriosa de repertório, sentiu alguma vez a necessidade de contemporizar ou de ceder, em termos de escolhas de qualidade, face a essa heterogeneidade?

O concerto de abertura da Festa do Avante! é de facto um concerto que se reveste de várias características muito especiais, abordadas na vossa pergunta, pois, para além de ser ao ar livre, destina-se a uma plateia muito heterogénea composta por várias dezenas de milhares de espectadores que poderão não estar habituados à música dita «clássica».

Por todas estas razões, a escolha do repertório tem obedecido a vários critérios, como sejam a acessibilidade, o carácter mais ou menos conhecido (de preferência mais!) e o brilhantismo das peças, sendo que tem sido procurado repertório cuja energia permita captar rapidamente a atenção dos espectadores e mantê-los interessados ao longo da totalidade do concerto (que costuma ter cerca de uma hora e meia de duração).

Podemos assim concluir que, mais uma vez este ano, a escolha das peças que se ouvirão no concerto inaugural da Festa se pautou, sobretudo, pela sua qualidade intrínseca... o que não contraria o facto de todas elas serem susceptíveis de agradar à generalidade do público presente...

Sim, paralelamente, tem-se procurado que cada concerto conte com a presença de um ou mais solistas (como é o caso deste ano, em que iremos ter quatro solistas a actuar com a orquestra), ou ainda a presença de um coro (como foi o caso dos anos 2016, 2017 e 2018 por exemplo). Evidentemente que, de vez em quando, não diria algumas cedências mas certos cuidados, têm de ser observados, pois determinadas obras possuem características que as tornam menos adequadas para, por exemplo, serem interpretadas na íntegra, devido à presença de um ou outro momento mais introspectivo (ainda por cima sujeito à «invasão» de ruídos envolventes ao recinto), isto apesar da qualidade intrínseca desses momentos.

Por vezes, algumas obras são interpretadas apenas parcialmente, escolhendo-se, quando é o caso, o andamento (ou os andamentos) mais representativo(s) e com o carácter (brilhantismo) mais adequado à ocasião. Tal foi o caso do concerto de 2017 no qual foram tocados os 3.º e 4.º andamentos da Sinfonia n.º 12 O Ano 1917 de Shostakovich, uma obra que tem quatro andamentos no total.

Rapsódia para Piano e Orquestra sobre um tema de Paganini

Questionando o pianista António Rosado

Sabe-se que as obras musicais subordinadas à fórmula tema e variações são não apenas uma das predilecções dos intérpretes solistas (de qualquer instrumento) mas também do agrado quase imediato e generalizado do público ouvinte.

Poderá haver várias razões para que tal aconteça: por um lado, o tema original subjacente à obra (geralmente da autoria de um terceiro compositor) torna-se, pela sua coerência interna, pela própria construção melódica e ainda pelas suas potencialidades harmónicas e rítmicas, suficientemente atraente e estimulante para que outro compositor se sinta desafiado a inventar, sobre ele, um determinado número de variações. E, mesmo que as notas que dão forma a estas novas «invenções temáticas» sejam suficientemente diferenciadas das do «tema original» (que o público pode até bem conhecer!), o certo é que, mesmo que «polvilhadas» pela nova composição do novo compositor, elas conseguem sobressair de algum modo (ou ser mesmo reconhecidas e identificadas, aqui e ali) no cerne da maior ou menor experiência auditiva por parte do seu receptor, o qual, numa palavra, assim se sente... mais seguro de si próprio!

Regra geral, estas variações afastam-se mais ou menos do traço melódico original, o qual pode sofrer tratamentos harmónicos que procuram transfigurá-lo, até pela alteração, por exemplo, entre os modos maior e menor ou entre tonalidades diferentes e mesmo nos seus andamentos, no decorrer da sua execução.

Por isso começámos por uma pergunta-de-algibeira ao pianista António Rosado, que será o destacado solista desta obra:

Avante! – Sendo a Rapsódia para Piano e Orquestra sobre um tema de Paganini de um brilhantismo e de uma invenção que ultrapassam, em muito, o «simples» esquema «tema-variações» – tendo-lhe, talvez por isso, o próprio Rachmaninoff atribuído o título Rapsódia –, acontece até que, para já não falar de outras, a sua variação nº. 18, Andante Cantabile em Ré bemol Maior, parece, no conjunto da obra, uma espécie de «parêntesis» que, como tal, possibilitaria, por absurdo, a sua autonomia/exclusão do próprio conjunto de variações, conferindo-lhe uma identidade tão própria que (passe a heresia!), quase dela se não sentiria a falta. Sendo esta observação propositadamente abusiva, como é que não apenas o intérprete-solista mas também o maestro e a própria orquestra se preparam mentalmente para este momento, de tal forma que ele surja, em termos musicais, de forma inteiramente natural, não como um «corpo estranho» mas como uma deriva (embora fortíssima), afinal tão plausível como outras que proliferam pelo conjunto da obra?

António Rosado – Antes de responder, gostaria de reafirmar aqui o prazer em regressar mais uma vez ao palco da Festa do Avante! e neste ano tristemente especial, já que será o primeiro em que não encontrarei o Ruben de Carvalho atrás do palco, o que lamento muito.
Relativamente à Rapsódia, devo dizer que é uma obra extraordinária que continua a entusiasmar-me ainda hoje: gravei-a em 1998 com a Orquestra da Norddeutsche Rundfunk de Hamburgo... Apraz-me que proponha como ponto de partida a variação 18, já que me parece a mais inspirada, mais profunda e também a mais famosa. Tenho uma percepção, certamente romântica, de que as variações precedentes vão preparando este auge (muito nitidamente a variação 17) e as que se seguem não são mais que uma espiral virtuosística até ao final.

Olhando ao pormenor, Rachmaninov foi genial em encontrar algo inovador neste tema de Paganini previamente tratado pelos maiores compositores: é que ele faz esta variação 18 sobre o tema invertido, no modo maior: uma espécie de manipulação da célula... que resulta numa das mais belas e apreciadas frases da música deste período.

Triplo Concerto de Beethoven

Três perguntas directas ao Trio Adamastor (Francisco Henriques, violino; Pedro Massarrão, violoncelo, José Pedro Ribeiro, piano)

Uma vez que o repertório do Concerto Sinfónico deste ano já foi abordado e analisado em outros números anteriores do Avante! e, ainda, na revista da Festa, mais do que buscarmos perguntas de carácter exclusivamente musical a fazer aos jovens membros do Trio Adamastor (o trio solista do excepcional Triplo Concerto de Beethoven, cujo primeiro andamento fará parte do repertório desse concerto), optámos por indagar as suas previsões ou antecipar a sua atitude perante o que pensam sejam as condições logísticas e, sobretudo, o tipo de público que vão encontrar nesse concerto.

Avante! – Gostaríamos de vos perguntar, muito directamente, se já frequentaram, enquanto visitantes «normais» – e, portanto, se já conhecem de anos anteriores – a Festa do Avante!?

Trio Adamastor – Não, infelizmente nunca tivemos essa oportunidade.

Não puderam, portanto, assistir a algum dos concertos sinfónicos que todos os anos inauguram, no Palco 25 de Abril, os espectáculos da Festa?

Embora não tenhamos ido a nenhuma edição anterior da Festa, estamos evidentemente cientes dos esforços realizados na integração da música dita mais «erudita» nos seus alinhamentos. Esta é uma iniciativa de louvar por promover uma consciência cultural indispensável nos dias de hoje e estamos muito gratos por esta se concretizar independentemente do nosso envolvimento passado.

Sendo assim, como são capazes de antever a vossa participação no concerto deste ano e, no fundo, quais são as vossas principais interrogações e expectativas face à vossa actuação?

Estamos ansiosos por pisar o palco já no próximo dia 6 de Setembro. Já trabalhámos com o Maestro Vasco Pearce Azevedo e por isso temos a certeza de que teremos um acolhimento mais que gentil. Relativamente à orquestra será uma estreia nossa, sem dúvida, e é sempre um prazer enorme fazer música com novas pessoas. Quanto ao público, tal como em qualquer outro espectáculo, esperemos que gostem!



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