• Correia da Fonseca

Existem

Foi na tarde do passado domingo: no âmbito de visita da RTP a uma festa popular algures longe das grandes cidades, surgiu um grupo de jovens a cantar uma canção de mineiros. Assim nos foi lembrado que os mineiros portugueses existem, lembrança útil porque talvez já não estivéssemos lembrados da sua existência, de tão pouco eles são falados designadamente na TV: outros, como recentemente os condutores de camiões que transportam matérias perigosas, entram no fluxo diário da comunicação social, são até motivo de polémicas, mas os mineiros é como se não existissem, o que induz a sugestão de que o seu quotidiano profissional, e não apenas ele, desliza sereno, sem estórias ou tele-estórias, e onde não as há presume-se que está tudo bem. Assim seja, naturalmente. Sob este ângulo, o silêncio que é um silêncio de paz e portanto desejável, é, no plano mediático, como se os mineiros não existissem.

Quase um dever

Mas existem, é claro, e não serão tão poucos como parecem ser ao avaliarmos o seu número pela sua presença nos media: a televisão fala-nos frequentemente dos que trabalham na agricultura (ainda que sem a proximidade bastante), leva-nos a visitar artesãos que trabalham isolados algures por esse país fora, mas a memória do telespectador dificilmente recuperará alguma visita da TV ao quotidiano do mineiro não apenas no interior da mina mas também no interior da sociedade em que está integrado. E, contudo, muito poderia a televisão vir-nos contar: os mineiros têm uma história que desde sempre, e decerto ainda hoje, guarda especificidades que seria útil conhecer. Na actividade desses homens que trabalham nas trevas há uma espécie de simbólica luminosidade particular, pois nenhuns outros laboram tão longe de circunstâncias geralmente entendidas, e bem, como normais. E uma eventual abordagem aos mineiros e à sua vida poderia talvez começar por uma pergunta: porque decide cada mineiro descer ao interior da terra pisada e procurar nas suas entranhas a subsistência que talvez lhe fosse negada cá fora. Para lá desta questão, haverá decerto outras perguntas, outras respostas e outros aspectos, um dos quais será um específico orgulho profissional decorrente da circunstância de ser o mineiro o único operário que mergulha na terra. Saber a troco de quê e de quanto, também ao preço de quantos e quais riscos, seria não apenas útil para o telespectador comum: seria quase o cumprimento de um dever de solidariedade cívica.




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