• Luís Carapinha

O revisionismo imperialista desdobra-se em campanhas de rescrita da História
Contra o tempo e a razão

A abertura dos trabalhos da AG da ONU marcou o início da temporada política internacional que leva aos 75 anos da Vitória sobre o nazi-fascismo e ao 75.º aniversário da fundação da ONU, celebrados em 2020. A Vitória de 1945 significa a consumação da derrota incondicional do fascismo na mais encarniçada e devastadora guerra da história e o advento de uma nova era e ordem internacionais, que teve como um dos grandes marcos, 15 anos após a histórica aprovação da Carta das Nações Unidas, a resolução da descolonização de 1960. É esta a arquitectura do mundo em que continuamos a viver e tal não seria possível sem o contributo decisivo da União Soviética, por muito que o revisionismo imperialista se desdobre em campanhas de reescrita da história e branqueamento do fascismo, intensifique as ameaças e atropelos ao direito internacional e à Carta da ONU e multiplique as acções de cariz neocolonial. Olhando para o conturbado tempo actual, no pano de fundo da arrastada crise de estagnação capitalista que assola os EUA e as potências centrais do sistema, não é difícil sugerir paralelos com os momentos mais trágicos do século XX, em que a crise do capitalismo, com todas as suas determinantes e variáveis, acabou por empurrar o mundo para o abismo. Contudo, as barreiras dissuasoras de um conflito bélico mundial são hoje muito mais elevadas, o que tem impedido a sua destrutiva deflagração, ameaçando acabar com a civilização humana. Escassos anos após o fim da II Guerra, a URSS logrou acabar com o monopólio nuclear dos EUA – o primeiro país a criar este tipo de arma e o único a usá-lo –, encerrando na gaveta os planos secretos documentados dos EUA de um ataque nuclear de supresa em larga escala. A conquista da paridade estratégica, num tempo cujo alvor assistiu ao triunfo da revolução chinesa e à fundação da RPC pelo PCC – de que agora se assinala o 70.º aniversário – sobreviveu ao abalo da desintegração da URSS, constituindo o fundamento do equilíbrio estratégico básico de forças que perdura até aos nossos dias.

Não espanta pois que a nova doutrina do Pentágono aponte a China e a Rússia como alvos centrais, que os seus orçamentos continuem a bater novos recordes ano após ano. Encurralada no pântano da crise e confrontada com a ascensão económica e tecnológica da China e o seu papel internacional, a Casa Branca relança uma desenfreada corrida aos armamentos, retira-se unilateralmente do tratado de liquidação das armas nucleares de curto e médio alcance, ensaia febrilmente novos cenários de ‘utilização local’ da arma nuclear, reduzindo perigosamente o limiar do seu uso, e força uma nova fase de militarização do espaço, rejeitando os apelos de Moscovo e Pequim com vista à sua proibição.

Esta é acima de tudo uma corrida contra o tempo e a razão. Chafurdando na lama – veja-se os últimos episódios do Maidangate e o anúncio do impeachment ou a insultuosa demagogia do reaccionário discurso trumpanês na AG –, o imperialismo norte-americano arroga-se o direito de sancionar qualquer um que não se submeta aos seus ditames. Mostrando a incapacidade fundamental do sistema em lidar com a realidade objectiva. São lapidares as palavras de Lavrov em artigo recente: «a transformação da ordem mundial adquiriu um carácter irreversível». O legado da grande Vitória está vivo e transporta-nos para novas e grandes lutas.




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