• Gustavo Carneiro

Os ausentes

«Setembro marca o regresso das lutas e a busca por alternativas para vencer a crise»: quem o afirma é o Bloco de Esquerda, na convocatória para uma iniciativa pública realizada no passado fim-de-semana, no Porto. Por esclarecer fica se o dito regresso é após um confinamento de meses ou simplesmente depois das férias estivais, mas para o caso pouco importa: só regressa o que alguma vez partiu e a luta, essa, sempre aí esteve. Sem o BE e, muitas vezes, apesar dele.

Só quem tenha andado muito distraído pode não ter compreendido que o grande capital viu no surto epidémico de COVID-19 uma excelente oportunidade para intensificar a exploração, centralizar a riqueza, sacar apoios públicos e, de caminho, semear o medo (haverá sentimento mais paralisante?). E que aproveitou – e cavalgou – legítimos receios e instigadas confusões para impor despedimentos, cortes de salários, alterações de horários e férias forçadas, em muitos casos após ter distribuído milhões em dividendos aos accionistas. 800 mil trabalhadores (dados do final de Maio) viram o seu salário cortado por via do lay off simplificado, a grande bandeira do Governo para, dizia-se, salvar a economia e o emprego. Dos beneficiários deste expediente, 54% eram grandes empresas e só 7,4% pequenas.

Só a quem não estiver todos os dias junto dos trabalhadores poderão ter passado ao lado as marchas realizadas em Sines, Setúbal e Évora; as greves nos CTT, no SUCH, no Pingo Doce, no Lidl e no Dia, na Coca Cola, nas minas da Panasqueira, na Super Bock, na Covibus, na Lauak, na Euroresinas, no Complexo Industrial de Sines; as concentrações dos trabalhadores dos transportes, da hotelaria e restauração, da Administração Pública, da RTP Porto, dos artistas e trabalhadores da cultura; a acção sindical junto à Sonae da Azambuja, em defesa da saúde dos trabalhadores.

Não fosse aquela infeliz afirmação coerente com a prática e podíamos estar perante um lamentável (mas ainda assim desculpável) lapso de linguagem. Mas não é disso que se trata: naqueles que foram dos meses mais duros de que há memória em termos de ataque aos direitos laborais e sociais, o BE optou por dar para o peditório dos que queriam ver confinada a luta, aprovando o estado de emergência (que limitou e suspendeu os direitos à greve e à resistência) e criticando abertamente a CGTP-IN pelas comemorações do 1.º de Maio, juntando-se assim – conscientemente ou não – aos sectores mais reaccionários da sociedade.

De pouco lhe vale, agora, louvar o regresso das lutas. É que ser verdadeiramente contra o medo implica coragem, que não teve quando se tratou de defender o emprego e os direitos.




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