MACAU
Tríades, lavagens e
negócios
Por Carlos Gonçalves
No momento histórico em que se concretiza finalmente o regresso de Hong Kong à soberania chinesa e à margem desses acontecimentos, mas não indiferente ao seu desenvilvimento, emerge em Macau uma violência intermitente mas brutal, associada às tríades e ofícios correlativos, e sucedem-se muitas e desvairadas tramas e conspirações, nem todas de recorte "apenas" oriental.
A guerra das tríades em Macau, desde o início do ano, resultou, pelo menos, em 16 execuções de alta violência, na tentativa quase consumada de assassínio do Comandante da PSP e na destruição por fogo posto de 30 motos junto a instalações policiais.
Por muito diplomáticas que sejam as declarações oficiais sobre este surto de violência, que ainda por cima tem feito correr muita tinta pelo mundo fora, a preocupação é evidente.
Recentemente, enquanto decorriam intensas negociações nos bastidores entre Portugal e a Republica Popular da China (RPC) relativas à transferência de soberania em 20 de Dezembro de 1999, o representante oficioso daquele país em Macau referia-se de forma clara às medidas necessárias de "combate à delinquência" e, dias depois, o Ministro Vitorino, em visita à cidade, dava nota do empenho das autoridades portuguesas nesse sentido.
Vive-se entretanto uma trégua, ao que se diz por intervenção das autoridades chinesas, mas, como em ocasiões anteriores, a alta violência, porque se mantêm todas as suas causas, pode ressurgir a todo o momento, se é que já não reapareceu com o inexplicado assassínio de várias prostitutas.
E sem dúvida que, a este respeito, releva o papel das tríades, a sua história, percurso e objectivos expícitos ou adivinhados e todo o tecido das respectivas actividades e de outros interesses que se movem na economia (semi)oculta, de Macau.
A guerra das tríades opõe a 14K e a "Gasosa".
A primeira é uma antiga sociedade secreta do crime organizado, cuja história se filia no Koumintang dos anos 40..
Foi fundada pelo general Wong, chefe da policia secreta de Chang Kai Chek e colaborou durante dezenas de anos com a CIA e com os restos do poder nacionalista, nomeadamente o exército que no norte da Birmània dominava a produção, de ópio.
Tem raízes profundas em Taiwan e Hong Kong e domina há muitos anos em Macau o submundo do jogo, a agiotagem, a prostituição e o tráfico de heroìna e opera grandes interesses no branqueamento de capitais nas salas dos casinos de Macau.
A segunda é uma tríade fundada há poucos anos em Macau, embora com ligações em Hong Kong e não só.
Dedica-se aos mesmos negócios que a sua adversária, mas é menor e menos influente, procurando alterar a seu favor os equilíbrios existentes.
Mas a guerra das tríades pelo controlo das actividades criminosas de Macau é provavelmente tão só a ponta do Iceberg do que realmente se está jogando no sub mundo do território.
Tráficos, Casinos
e "Off shore"
Macau foi durante três séculos a porta de todos os negócios e tráficos de e para a China Imperial, por lá passava grande parte do comércio externo chinês e, nessa condição, tornou-se o anfitrião do mercado do ouro do Sudoeste da Ásia.
Assim era antes da anexação de Hong Kong, em pleno século XIX, como resultado da "guerra do ópio", quando o "austero" Império Vitoriano impôs à China, pela política da canhoneira, o consumo da substância mãe da heroína.
O primeiro "comerciante e financeiro" britânico a instalar-se na Hong Kong colonial foi W. Jardine, o traficante de droga a quem a confiscação do òpio pelo governo chinês motivara a agressão imperialista.
Desde então esta simbiose entre os tráficos criminosos e a actividade comercial, produtiva e sobretudo financeira, fez o crescimento de Hong Kong, tornando-a peça chave dos negócios da bacia do Pacífico e, durante anos, a terceira praça financeira mundial, onde a injecção de dinheiros de todas as origens, à procura de branqueamento ou rápida reprodução, cavalgando consecutivos "crashes", deu origem a bilionários da especulação imobiliária e financeira como Lee Shau Kee ou Li Ka-Shing, colocados no ranking 1996 da Forbs Magazine como 4ª e 6ª fortunas mundiais.
Campeã da desregulamentação, do monetarismo, da financeirização da economia, e também da sua criminalização, Hong Kong foi o paradigma neo-liberal de Milton Friedman e "a economia mais livre do mundo" na definição da "sagrada congregação" da Escola de Chicago e da Heritage Foundation.
Macau viveu nos últimos 150 anos à sombra de Hong Hong e, após a 2ª guerra, assumiu progressivamente o caracter de economia supletiva e subsidiária da colónia britânica.
As maiores receitas dependem do turismo de casino e da actividade bancária off shore, onde se escoam parte das fortunas legítimas ou ilegítimas e das receitas de actividades criminosas, bem como as fugas ao fisco de Hong Kong.
Os 10 casinos, propriedade da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) de Staneley Ho, atigiram, em 1995, uma receita bruta estimada de 300 milhões de contos; e só existe a estimativa porque, desde que em 1986 Carlos Monjardino, então Secretário Adjunto da Economia de Macau, atribuiu à STDM, o monopólio dos casinos do território que as receitas respectivas estão isentas de publicação pública, tendo uma portaria de 1996 permitido a "sinopse", em vez do balanço.
Os 50 000 visitantes diários dos casinos da STDM são alvo previlegiado das tríades que arrendam, ao que parece por valores até 500 000 contos/ano, as mesas e salas de jogo - onde nenhuma autoridade legal exerce controlo.
Em torno do jogo desenvolvem-se muitos dos negócios escuros das tríades, o mais rentável será a lavagem de dinheiro quente, utilizando em primeira instância os "bancos informais" da tradição chinesa que funcionam na diáspora, na Malásia, na Indonésia, nas Filipinas, nos E.U.A. e na Europa, mas há também a agiotagem, a prostituição e o tráfico de drogas.
Este negócio clandestino de milhões que se move no sub-mundo dos casinos da STDM, ou os interesses de eventuais futuros concorrentes nestas actividades, são certamente causa próxima da guerra das tríades.
Mas adivinham-se outras alianças, tramas e conspirações de interesses inconfessáveis, entre o jogo, as tríades e quem mais aproveita deste fluxo de capitais, os bancos instalados em Macau, alguns deles ligados aos "capitães do dinheiro" portugueses, referidos como ligados à "Maçonaria" ou à "Opus Dei", com as rectaguardas protegidas pelos off shore da Madeira e respecivos "links" internacionais, no Luxemburgo, ou algures, nos seus aparelhos financeiros ou de financiamento e influência polìtica oculta, nacionais e mundiais, assim se cumprindo o desígnio da "globalização".
Finanças, Fundações
e Sociedades Secretas
Cerca de 100 milhões de contos do Orçamento de Macau em 1997, 40% das respectivas receitas fiscais, resultam de 30% das receitas brutas da STDM.
Mas o monopólio de Staneley Ho está garantido apenas até 2001 e, ainda assim, de acordo com o que veio a público da posição chinesa, após um aumento da contribuição fiscal para 31,8%, e a passagem dos 1,6% das receitas brutas da STDM, que anteriormente se destinavam à Fundação Oriente (FO) e que não são oficialmente entregues desde 1993, para uma nova Fundação, controlada por Rocha Vieira e futuramente pelo Governador chinês de Macau.
A FO, de que é presidente Carlos Monjardino, fora acusada num relatório da Assembleia Legislativa de Macau de ter recebido verbas superiores ao establecído, totalizando 33 milhões de contos em meia dúzia de anos, retirados na maioria de Macau, em desrespeito dos respectivos estatutos e sem "qualquer objectivo de permanência no território para além da data da transferência da Administração".
Monjardino é amigo e sócio de Stanley Ho em vários negócios, como o envolvimento "contra natura" com interesses e capitais da Igreja e com o "grupo Lusomundo" na TVI, ou em Cascais, onde, numa daquelas coincidências em que toda esta história é abundante, os interesses do Casino Estoril, propriedade de Ho (e o maior da Europa), se cruzam com os de Monjardino enquanto presidente da Assembleia Municipal.
Aliás a este respeito não é possível deixar de citar um texto de "Géopolitique des drogues 1995"- " (...) Um outro lugar sensível" (no que respeita ao branqueamento de capitais da droga em Portugal) "é a região do Estoril, cujo casino tem por proprietário um homem de negócios de Macau que está à cabeça de vários establecimentos deste «território especial» de Portugal, reputado por ser um local importante de branqueamento muito frequentado pelos membros das tríades de Hong Kong. Acontece que a «Fundação Oriente», dirigida por personalidades de esquerda", (obviamente da área do PS), "(...) foi inicialmente financiada pelo governo de Macau"(*1) .
Neste quadro, não se estranha que o citado relatório do orgão legislativo de Macau refira pagamentos ilegítimos e maiores que o estipulado da STDM à FO, efectuados mesmo depois de oficialmente suspensos; nem que diversos "media" admitam que, no futuro, a FO vai continuar a ser financiada pela STDM, com recurso a verbas não previstas nos acordos de transferência de soberania.
Nem se estranham as coincidências de toda esta trama com o que escreveu Rui Mateus, com o "caso fax de Macau", a "Emaudio" e os personagens conhecidos.
Não se estranha a coincidência, mais uma, da sobreposição de nomes, empresas, grupos económicos e bancos nacionais e estrangeiros, envolvidos nestes negócios dos casinos e off shore de Macau, e os que são citados nas listas avulsas das sociedades secretas, da "Maçonaria" e da "Opus Dei".
As tríades já cá estão
Qualquer manual sobre branqueamento de capitais, corrupção ou crime económico enuncia tramas como estes, nas suas muitas envolventes e extensões: na criminalização da economia, na deslegitimação do poder político democrático pelo controlo do poder económico, a infiltração das sociedades secretas, a corrupção e as mafias, no financiamento oculto de determinadas forças políticas ou sindicais, com recurso a expedientes diversos, às "fundações" ou às seitas religiosas que, pela respectiva natureza "benemérita", estão quase isentas de controlos e em óptimas condições de manipular verbas elevadas ao serviço de causas inconfessáveis.
Por isso, quando hoje se olha para a violência da guerra das tríades de Macau e se teme que a próxima transferência de soberania para a RPC, precipite a sua importação por Portugal, seria mais avisado reparar melhor nas que temos por cá.
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(*1) Géopolitique des drogues 1995, Rapport annuel de l'OGD, Éditions La Découverte, Paris 1995