ARGUMENTOS
Pescarias pela liberdade
Por José Labaredas
O povo do Couço, desde
sempre amante da liberdade, arreigado às coisas do património e
da sua identidade cultural, amigo da Natureza e da justiça
social desde antes dos tempos da I República, que estava
preparado para receber (e de que maneira ávida!), pois a
implantou a nível local em Agosto, três meses antes da sua
proclamação à janela da Câmara Municipal de Lisboa, adoptou
durante a longa noite fascista várias formas clandestinas de
luta, entre as quais assumiu papel relevante na estratégia de
combate ao salazarismo, a realização de pescarias na margem no
Rio Sorraia em que, a par do convívio fraterno, se discutiam as
formas de luta a desenvolver no futuro (organização partidária
e manifestações e greves de cariz eminentemente político),
perfilando-se como um bastião de vanguarda da luta camponesa,
sob a bandeira do PCP, cujo ideário fora difundido no fim do
século passado aquando da valorização da cortiça a nível
industrial por operários corticeiros idos do Barreiro e que a
população do Couço logo abraçou exaltantemente por conterem
os ideais que sempre perseguira.
Chegada a Primavera e o Verão, período de maior intensidade dos
trabalhos agrícolas e, consequentemente, das lutas camponesas,
quando a Pide cerrava cerco mais apertado às iniciativas
políticas clandestinas, os camponeses coucenses serviam-se dessa
forma subreptícia de luta as pescarias no Rio Sorraia
para prosseguir os seus objectivos políticos em busca da
manhã gloriosa de Abril que tardava em raiar.
Assim, na véspera do dia aprazado, eram armadas as redes pelos
pescadores artesanais que dextramente conheciam os hábitos de
pernoita piscícola, junto à margem do Sorraia mais propícia à
captura das espéces.
Logo de manhãzinha iam ser recolhidas e, habitualmente,
apresentavam-se grávidas de barbos, bogas e fataças, sendo
então escolhidos os exemplares suficientes (os barbos maiores
para a Sopa de Peixe e algumas fataças para assar à merenda),
sendo os restantes restituídos às águas remansosas da ribeira.
Presidia à escolha dos exemplares maiores um critério de
excelência pois os peixes mais adultos são os mais saborosos e
(não menos importante) também porque sendo os clupeídeos,
peixes caracterizados por um denso sistema espinhal, a
experiência dita que os exemplares adultos são também os
detentores de espinhas de maior envergadura e, portanto, as mais
facilmente detectáveis pelos convivas.
Um grande lume de chão de paus de sobreiro crepitava, desde
manhã, à ilharga do local de amesendação. À aproximação do
meio-dia as cozinheiras já tinham preparados os temperos que
compunham a sopa que se adivinhava tentadora pela simples visão
das opulentas postas dos peixes amanhados e pela frescura de
todos os ingredientes. Era colocada então sobre uma ancha trempe
um bojudo tacho já com a sua cebola picada, uns dentes de alho,
um bom ramo de salsa, alguma pimenta preta e umas folhas de
louro, ingredientes que se deixavam estalar um pouco.
Juntavam-se-lhe, em seguida, antes da cebola aloirar em demasia,
abundantes tomates bem maduros, limpos de sementes, e generosas
tiras de pimentos verdes e vermelhos. Logo nesta fase, os
eflúvios que se evolavam do tacho, disseminando-se em volta,
faziam fremir as narinas e desinquietar as papilas dos
circunstantes, até dos mais circunspectos.
Depois de o tomate e os pimentos terem refogado, as postas dos
barbos limpas e amanhadas eram então deitadas no tacho. Ali
ficavam um pouco a impregnarem-se do e a impregnarem o refogado,
acrescentando-se, por fim, a água suficiente para a cozedura e
apuramento do peixe.
À parte, numa ampla frigideira, era feita previamente uma
salmoura, vulgarmente designada por moura, que não era
mais que um refogado bem apurado com azeite, bastante
cebola, tomate e colorau que, depois de pronta, havia de ser
vertida, ainda ebuliente, sobre o peixe cozido que repousava, à
parte, em ampla travessa.
A sopa propriamente dita era depois vertida para grandes malgas
indo escaldar as fatias finas de pão caseiro nelas previamente
depositadas, sendo acompanhada pelas postas que haviam rechinado
na moura durante algum tempo.
À merenda, lá saltavam do lume as fataças nédias e loiras, de
carne branca e firme que sobre alvas fatias de pão caseiro iam
regalar as bocas mais lambareiras. Por fim, todos ajudavam
diligentemente a arrumar os utensílios de cozinha, a apagar
cuidadosamente o lume e a enterrar no areal os desperdícios do
repasto ficando a praia fluvial impecavelmente limpa, a ombrear
com a claridade das águas despoluídas da ribeira.
Em fim de tarde de calmaria, ressarcido o estômago, regado o
canteiro da amizade, distribuídas as tarefas políticas, lá
partiam todos com a certeza de que, com as acções que se
avizinhavam, iriam contribuir para um futuro melhor, com mais
justiça social e em liberdade plena.