- Edição Nº1938  -  20-1-2011

O dilema do «carola» e a função do seu clube

A opinião de que o clube se deve transformar numa empresa considera que se adere a actividade desportiva com a finalidade de usufruir os serviços que o clube presta. Os sócios não são mais do que simples consumidores que exigem a máxima competência dos dirigentes e dos técnicos.

Além disso, impõem-se tomar em consideração que o fornecimento de um subsídio ou de um apoio de qualquer ordem vindos de entidades públicas representa, de facto, um custo à comunidade, financiada pelos impostos que cada um paga. Ora, o custo da utilização de uma piscina, de um campo de futebol, de um ginásio, de uma pista, etc., não é, desta forma, sustentado pelos utilizadores, pelos praticantes, mas sim pelos contribuintes. O que significa que só alguns recebem os benefícios dessas contribuições realmente fornecidas pela totalidade da comunidade a favor de um pequeno grupo. O que é, naturalmente, é considerado injusto.

No seu conjunto, esta argumentação apresentada acriticamente como a justificação mais forte para o aumento da capacidade de gestão do dirigente desportivo, da sua formação e passagem à profissionalização, aparece como imbatível. Se a aceitarmos, o processo de democratização da actividade desportiva consistirá em escolher um dos termos da alternativa: ou diminuir o custo da actividade, atingindo, com isso, a sua «qualidade», ou conseguir obter meios vindos do exterior para, garantindo a melhor qualidade, colocar as actividades ao alcance do maior número de consumidores.

Trata-se de uma argumentação com peso, abrindo caminho para a entrada dos patrocinadores (sponsors) no desporto, negando a função do serviço público ao clube. Leva, mesmo no campo do desporto popular, a uma dispersão de opiniões, que vão desde a clara rejeição desta perspectiva afirmando a completa exclusão de assalariados pelo clube, passando pela concepção de que o dirigente desportivo voluntário seria muito bom, mas… é utópico actualmente, e outros defendendo que só a profissionalização dos dirigentes e a criação no clube de um forte enquadramento técnico é que pode garantir a sua manutenção e consolidação.

Facilmente se compreende que a sequência de argumentos apresentados leva inevitavelmente a duas situações: por um lado, a preocupação com a produção do «acontecimento», ou seja, com o mais espectacular que é capaz de corresponder aos interesses do patrocínio, porque mobilizando a atenção da comunidade. Por outro lado, promove a montagem de «serviços» a oferecer à «procura» a um preço que não toma em consideração a real capacidade daqueles que mais dificuldades têm em aceder às práticas. Mas, para além disto, coloca todos os elementos na posição de simples «consumidores» a que são alheios os clássicos valores do clube – serviço de interesse público, solidariedade, formação e afirmação da cidadania, participação na gestão da «coisa pública» em directa colaboração com o Estado – como determina a Constituição.

Mas se este aspecto é, já por si, de extrema importância, ainda que de carácter teórico, o primeiro aspecto constitui uma barreira prática inegável. A grande maioria da população que aqui nos interessa é aquela para quem o acesso ao desporto está dificultado devido às suas limitações financeiras. Ora, é também esta população que integra, por definição, o clube popular.

De facto, em termos realistas, a alternativa é outra: ou se realiza a «salvação» do clube através da lógica da produção do espectáculo, ou da produção de produtos de «alta qualidade», e é o «carola» que está em causa e o clube que «foge» às suas finalidades sociais. Ou o clube rejeita esta solução e cai numa vida de penúria miserabilista, na medida em que, por si só, e através da população que tem em mira, é incapaz de gerar os meios indispensáveis para alterar esta situação.

No fundo a questão é esta: o clube, elemento social que não pode fugir ao campo económico, tem de ser correctamente gerido. As técnicas modernas de gestão não podem, por isso, ser desconhecidas dentro do clube. Interessa é saber qual a via que os seus dirigentes desejam seguir. E essa via é determinada pela escolha em termos de finalidade consciente da sua acção.

A verdade é que esta situação não pode deixar de tomar em consideração a grande heterogeneidade dos clubes. A situação do «grande» clube, produtor do espectáculo desportivo, não tem, ou não deve ter nada com a do pequeno clube popular. E é este que aqui nos interessa, sem esquecer a enorme variedade de situações intermédias que poderia dar lugar a uma autêntica «escala» de posicionamento de cada clube.


A. Mello de Carvalho