Marx e Engels conheceram-se em 1842, iniciando uma profícua colaboração teórica e prática
Nos 200 anos de Friedrich Engels - gigante da teoria e da acção revolucionárias

EVOCAÇÃO Nascido há 200 anos, Friedrich Engels foi um brilhante filósofo e um revolucionário apaixonado, participante activo nos combates políticos e sociais do seu tempo. Juntamente com o seu camarada e amigo Karl Marx, fundou o socialismo científico, cujos ensinamentos mantêm hoje toda a actualidade revelando-se indispensáveis para a luta que continua pela transformação revolucionária da sociedade, pelo socialismo.

Profundamente abalado pela morte de Marx, Engels afirmou sempre que o seu contributo para a teoria do socialismo científico era a de um mero «segundo violino»: para ele, era Marx o «génio», o que «estava mais acima» e «via mais longe». Se a caracterização que fez da importância histórica de Karl Marx não merece contestação, a modéstia de Engels (e a profunda estima e admiração que sentia pelo amigo) levou-o a minimizar o alcance da sua própria contribuição.

Já Lénine não teve dúvidas em afirmar, anos mais tarde, ser «com toda a justiça que os nomes de Marx e Engels figuram lado a lado como os nomes dos fundadores do socialismo contemporâneo». Para o revolucionário russo, «não se pode compreender o marxismo e não se pode expô-lo integralmente sem ter em conta todas as obras de Engels».

De facto, as obras de Marx e de Engels constituem um todo coerente, independentemente do papel particular assumido por cada um. Os seus caminhos cruzaram-se pela primeira vez em 1842, na redacção da Gazeta Renana (para a qual ambos escreviam), mas foi sobretudo a partir de 1844 que se iniciou a sua colaboração regular, que se tornou cada vez mais intensa e profícua: neste mesmo ano começaram a escrever a sua primeira obra comum, A Sagrada Família. Seguir-se-iam muitas mais, nos anos e décadas ulteriores, entre as quais se destaca o Manifesto do Partido Comunista, de 1848.

Parceiro, camarada e amigo

A própria obra magna de Marx, O Capital, não teria chegado até nós na sua versão completa sem a colaboração de Engels, que trabalhou sobre os (praticamente indecifráveis) manuscritos de Marx, seleccionando-os, ordenando-os e completando-os, sempre em rigoroso respeito «pelo espírito do autor», garantia. Seria uma vez mais Lénine a atribuir a Engels a importância que o próprio menorizava: «Estes dois volumes de O Capital [os livros II e III] são, com efeito, obra de ambos, de Marx e de Engels.»

Ao trabalhar sobre O Capital, Engels sentia que estava novamente com o seu «velho camarada». Na verdade, a relação entre ambos rapidamente evoluíra para uma amizade profunda e, voltando a Lénine, «comovente»: para além da colaboração intelectual e da militância revolucionária partilhada, Engels nunca regateou o apoio material a Marx e à sua família, sempre que estes se viram confrontados com o sufoco financeiro.

Contributo decisivo

Engels deu à formulação dos princípios do socialismo científico uma importante contribuição. Nascido a 28 de Novembro de 1820 na Renânia prussiana, era filho de um industrial têxtil, o que levou a que – antes até do que Marx – tomasse contacto de perto com a classe operária e as suas condições de vida, particularmente na fábrica do pai em Manchester, para onde foi em 1842.

No seu livro A Situação da Classe Laboriosa na Inglaterra, escreveu: «quis ver-vos em vossas casas, observar-vos na vossa vida quotidiana, conversar convosco sobre as vossas condições de vida e as vossas queixas, ser testemunha das vossas lutas contra o poder político e social dos vossos opressores». Esta experiência revelar-se-ia decisiva para a elaboração de uma concepção materialista da história, primeiro levada a cabo, juntamente com Marx em A Ideologia Alemã, e que depois aprofundou em obras como A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

Para além do inegável contributo teórico que deu para o marxismo, Friedrich Engels – tal como Marx – foi um empenhado revolucionário. Depois de, na sua estada em Inglaterra, ter contactado com os círculos socialistas locais, entre 1845 e 1847 viveu em Bruxelas e Paris, onde não poupou esforços no contacto com os operários alemães aí exilados. É a partir de então que Marx e Engels, no âmbito da acção da Liga dos Justos a que aderiram, são levados a expor os princípios fundamentais do comunismo por eles elaborado – o que será feito no Manifesto do Partido Comunista, redigido por Marx mas que contou com a contribuição fundamental do documento elaborado por Engels, Princípios Básicos do Comunismo.

A influência que ambos acabaram por assumir na Liga dos Justos fica evidente na alteração da sua designação para Liga dos Comunistas e na adopção da palavra de ordem «Proletários de todos os países, uni-vos!» no congresso da Liga de Junho de 1847. Mas será no seu segundo congresso, realizado de 29 de Novembro a 8 de Dezembro de 1847, que a nova orientação da Liga, por acção de Marx e Engels, fica claramente definida como o revela o artigo 1.º dos Estatutos então aprovados:«O objectivo da Liga é o derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes, e a fundação de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada.»

A teoria e a prática
da Revolução

No decurso da revolução de 1848-1849, Marx e Engels regressaram ao seu país, assumindo a direcção da Nova Gazeta Renana, jornal democrático que se publicava em Colónia e que acabaria por ser proibido. Aquela experiência revolucionária seria analisada por Engels em Revolução e Contra-Revolução na Alemanha (Marx faria o mesmo para França em A Luta de Classes em França). Derrotada a revolução, exilados em Inglaterra, não cessam a sua produção teórica e a sua actividade prática: em 1864, foi formada a Associação Internacional dos Trabalhadores, essencial para a expansão do movimento operário e socialista, até ser dissolvida na década de 70. São deste período os mais frutuosos estudos de Engels relativos à utilização da dialéctica materialista no conhecimento da Natureza, que plasmaria em obras como o Anti-Düring e Dialéctica da Natureza, esta última publicada postumamente.

Após a morte de Marx, Engels continuou activo no movimento revolucionário, constituindo-se como a figura preponderante da fundação da Segunda Internacional, em 1889. Até ao último dia da sua vida – morreu a 5 de Agosto de 1895 – foi um incansável lutador pelos princípios do socialismo científico, elaborado por Marx e por si próprio, quer no Partido Operário Social-Democrata alemão quer na Internacional.

Um legado que perdura

O PCP realizou, a 27 de Setembro, a Conferência «Engels e a luta na actualidade pelo socialismo», onde não só destacou a importância das suas obras e o significado da sua militância revolucionária, como as transportou para a actualidade. Engels, como Marx e Lénine, dotaram os revolucionários de relevantes ferramentas de análise e acção.

Na intervenção de abertura da Conferência, o Secretário-geral do Partido, Jerónimo de Sousa, realçou várias «teses e análises fundamentais do marxismo-leninismo» que a realidade demonstra todos os dias:

- a acentuação da contradição principal do capitalismo – entre o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção;

- a baixa tendencial da taxa de lucro em função da alteração da composição orgânica do capital e que será acentuada no quadro da instrumentalização das novas tecnologias para aumentar a acumulação capitalista;

- a pauperização relativa (e mesmo absoluta) com a diminuição constante dos rendimentos do trabalho e o aumento do exército de mão-de-obra desempregada;

- a financeirização da economia, com a cada vez maior prevalência de dinâmicas especulativas que sufocam o investimento produtivo e acentuam a magnitude das crises cíclicas de sobreprodução;

- o desenvolvimento desigual do capitalismo, causa funda das actuais contradições dentro do campo imperialista e de elementos do complexo processo de rearrumação em curso no plano internacional;

- a acentuação do carácter parasitário, agressivo e criminoso do capitalismo, com a corrida aos armamentos, a militarização do espaço, a profusão de conflitos, a política de ingerência e guerra, a corrupção sistémica e o cortejo de actividades criminosas e tráficos;

- o carácter predador do capitalismo, decorrente da anarquia da produção e da prevalência do lucro nas relações de produção, acentuado com as políticas de expansão colonial e imperialista, as verdadeiras causas de fundo da crescente rapina de recursos naturais e da degradação ambiental;

- e, por fim, a relação entre a acentuação da exploração, a intensificação da repressão e a opressão nacional, fenómenos indissociáveis entre si que estão na origem de outros como o crescimento da extrema direita, o racismo e a xenofobia.

Por mais que o capitalismo tenha demonstrado «enormes capacidades de recuperação», há o outro lado da moeda, que é o que verdadeiramente conta para os comunistas e para o qual Jerónimo de Sousa chamou a atenção: a realidade demonstra não só a «imperiosa necessidade» mas também uma «notável acumulação dos factores objectivos para o desenvolvimento da luta por transformações progressistas e revolucionárias».


«Que chama do espírito se apagou! Que coração deixou de bater!»

(Elogio fúnebre de Engels, 1895)

 

«Não se pode compreender o marxismo e não se pode expô-lo integralmente sem ter em conta todas as obras de Engels.»

«O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores [Marx e Engels], cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos.»

«Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre, mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo




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