- Nº 2691 (2025/06/26)
Em simultâneo, Eduardo Gageiro descobre a fotografia, vai afinando o olhar e descobrindo como esse olhar enquadra a realidade e se regista nos negativos. É também com 12 anos que vê uma sua fotografia publicada na primeira página do Diário de Notícias. É o seu primeiro fotograma de um futuro percurso de fotojornalista que se inicia no Diário Ilustrado – que marca, nos anos 50 e 60 do séc. XX, uma época no jornalismo nacional.
Não é um acaso um tão jovem fotógrafo ter a oportunidade de iniciar aí a sua carreira profissional, apurando o seu olhar humanista com que, no silêncio das representações fotográficas, narrava Portugal com a precisão que imprimia ao instante decisivo com que se captura um momento para o eternizar, que é o que distingue todos os grandes fotógrafos. As milhares de fotografias de Eduardo Gageiro são o registo de uma realidade nas suas múltiplas evidências, dos rostos anónimos aos das celebridades, da solidão de um personagem aos movimentos das grandes massas populares, do trabalho nos campos e nas fábricas, dos segredos urbanos porque passamos sem neles reparar, da dor de uma criança com fome à inocência alegre de uma outra criança a brincar.
É um inestimável arquivo de imagens captadas em décadas – dos anos 50 até à sua morte. São um registo histórico dos factos políticos, sociais e culturais para que olhava com desassombro: «diz-se que um jornalista tem que ser imparcial. Eu acho que não. Eu não sou imparcial. Não estou ligado a nenhum partido, mas analiso a situação, procuro onde está a verdade, tomo um partido.»
Com essa bússola nunca perdeu o norte, foi sempre um homem assumidamente de esquerda que o fez ser um dos primeiros e o mais activo fotojornalista a mergulhar nos cenários do 25 de Abril, fixando inesquecíveis imagens dos militares no Terreiro do Paço, no Largo do Carmo (no assalto à sede da PIDE), percebendo desde o primeiro momento que a queda da ditadura era inevitável, que a revolução triunfaria. Não é o único fotógrafo da Revolução de Abril, é o fotógrafo da Revolução dos Cravos nos momentos fulcrais daquele dia, nos meses subsequentes.
Desde as suas primeiras fotos nunca deixou de andar armado com uma máquina fotográfica, sempre pronto a fotografar, deixando testemunhos da emigração, da guerra, da pobreza, do excesso, do absurdo dos conflitos, como aconteceu em Timor e no Iraque, nos anos de 1990. Foi um dos poucos repórteres fotográficos, a nível mundial, a fixar os raptores da equipa israelita no Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.
Fez retratos de inúmeras personalidades da vida política e cultural. Tem uma extensa bibliografia em que colaborou com os mais destacados escritores portugueses explorando temas que desde sempre o motivaram. Em Portugal, a história do fotojornalismo, se não começa com ele, é com ele que dá um salto qualitativo que marca todas as gerações seguintes.