Sim, censuramos a Comissão Europeia

João Oliveira

A Comissão Europeia merece censura e as razões dessa censura estão nas suas opções políticas.

Estão na política que faz ao serviço dos grupos económicos e financeiros, das multinacionais e das grandes potências, de promoção de processos de liberalização e de privatização. Estão na política de fomento da escalada armamentista e do aumento das despesas militares, na política de confrontação e guerra que promove no plano internacional. Estão na política de ataque a direitos sociais e laborais e de desprezo pelos direitos e condições de vida dos trabalhadores e dos povos. Estão na cumplicidade com o genocídio do povo palestiniano e com a criminosa política de ocupação e agressão impunemente levada a cabo por Israel na Palestina e no Médio Oriente.

Essas razões estavam apenas parcialmente na moção de censura que foi apresentada, nomeadamente na crítica ao escândalo do negócio milionário da compra de vacinas à Pfizer que continua ensombrado por suspeitas de promiscuidade envolvendo a presidente da Comissão, Ursula Von Der Leyen.

As nossas razões para votar favoravelmente a moção de censura não se confundem, por isso, com o voto de uma parte da extrema-direita, que votou demagogicamente no mesmo sentido. E não é de estranhar.

A Comissão Europeia convive bem com a extrema-direita. Descontando divergências encenadas, essa convivência está à vista nas relações da UE com o governo italiano e outros, dentro ou fora da UE.

E a extrema-direita apoia a Comissão Europeia no essencial das suas opções políticas. Foi, aliás, por isso que uma parte da extrema-direita não participou na votação, como foi o caso dos fascistas italianos do partido Fratelli de Italia, de Meloni.

Seria um erro deixarmos condicionar o nosso sentido de voto na censura à Comissão Europeia pelo sentido de voto da extrema-direita.

Primeiro, porque a apreciação do sentido de voto da censura à Comissão Europeia não pode estar desligada das razões políticas que o sustentam e essas, sim, são o elemento político decisivo.

Segundo, porque isso significaria, na prática, a capacidade da extrema-direita condicionar e determinar as posições e sentidos de voto à esquerda quanto às políticas da UE.

O voto a favor é aquele que melhor expressa a discordância de fundo com a política da Comissão Europeia. Ele tem um valor e um sentido próprio a partir das razões que o sustentam.

O voto do PCP no Parlamento Europeu a favor da censura à Comissão Europeia é claro na crítica às orientações políticas que têm sido seguidas mas também ficará claro, no futuro, perante os desenvolvimentos negativos que essas opções arrastarão consigo.

Quando alguém se perguntar onde estava o PCP quando foi preciso tomar posição no Parlamento Europeu pela derrota ou pelo apoio à política neoliberal, militarista e federalista da Comissão Europeia, incluindo a sua cumplicidade com o genocídio na Palestina, a resposta estará clara no nosso voto e nas nossas razões para a censura à Comissão Europeia.

 



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