Política de retrocessos em debate no “estado da Nação”

«Governo anda entretido a falar de um país ficcionado»

A Assembleia da República debateu, no dia 17, o “estado da Nação” – uma discussão onde, perante o que Paulo Raimundo classificou de «triste espectáculo», foi o PCP que trouxe os problemas que afectam, verdadeiramente, a vida de cada um.

«O País e a vida das pessoas estão mesmo piores»

Lusa

Discutir o “estado da Nação” é, sublinhou Paulo Raimundo, «discutir a vida das pessoas». E que vida é essa? A resposta veio de seguida: uma «vida difícil», caracterizada por graves ataques a direitos fundamentais, consagrados na Constituição.

E, dirigindo-se directamente ao primeiro-ministro, o dirigente comunista foi contundente: «A vida das pessoas e o País real passam ao lado da bolha onde vive. Para si, cada problema é uma oportunidade para servir os grupos económicos e as multinacionais».

O deslumbramento

Paula Santos, no encerramento do debate, apontou que, hoje, a juventude, os trabalhadores e os idosos estão a ser «empurrados para o empobrecimento», enquanto «o Governo anda entretido a falar de um país ficcionado, deslumbrado com a sua própria propaganda». Para além de todas as ilusões, destacou, «o País e a vida das pessoas estão mesmo piores».

E acrescentou: «A realidade de quem sai de madrugada para trabalhar, de quem faz contas para tentar pôr comida na mesa, de quem não encontra uma casa que consiga pagar, é marcada por crescentes desigualdades, pelo contraste entre os lucros dos grupos económicos e das multinacionais e os salários e pensões curtos para o mês, e pela destruição de serviços públicos».

«Melhor»?

No debate, o primeiro-ministro afirmou que o País «está melhor, a vida das pessoas está melhor». Resta perguntar: será assim?

Luís Montenegro aludiu, por exemplo, ao Plano de Emergência e Transformação da Saúde como paulatina solução para os constrangimentos no SNS. A isto, Paulo Raimundo referiu que os factos desmentem a ilusão – das grávidas e crianças que se deparam com serviços e urgências fechados, à falta de profissionais. Pelo contrário, adensa-se o desvio de recursos públicos do SNS para os privados.

O primeiro-ministro afirmou que já foi decidida a abertura de 12 mil vagas na educação pré-escolar. O Secretário-Geral recordou que este ano lectivo iniciar-se-á sem vagas para todas as crianças, o que já poderia estar a ser resolvido tivesse sido aprovada a proposta do PCP para a criação de uma rede pública, gratuita e universal de creches.

Disse Luís Montenegro que o seu Governo aprovou um “estatuto da pessoa idosa», e iria aprovar, e entretanto já o fez, um suplemento extraordinário para pensionistas (ver caixa). A verdade é que, como assinalou Paula Santos, os idosos são, hoje, alvo de «uma política que perpetua a pobreza», com a maioria dos reformados e pensionistas (mais de dois terços) a receber menos de 600 euros por mês.

O primeiro-ministro assegurou, ainda, que o seu Governo está a encetar uma política de imigração “regulada” e “humana” (de que as recentes alterações à lei de estrangeiros seriam exemplo). Na realidade, e como destacou a líder parlamentar do PCP, o Executivo tem como primeira prioridade não qualquer tipo de humanismo, mas convergir com o CH no ataque aos direitos dos imigrantes, «numa agenda retrógrada e desumana», que separa pais de filhos, «carimba imigrantes pela conta bancária», promove a ilegalidade e o medo, «alimenta o racismo e a xenofobia», e, com isso, impõe mais exploração e atira para a imigração a semente dos problemas do País, «que resultam da política do Governo».

O Governo confessa-se…

Se o primeiro-ministro destacou algumas das áreas onde o País estaria «melhor» – recebendo, da voz dos deputados comunistas, a realidade, irreconciliável com essa fantasia –, coube ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, “assinar” a confissão do Governo.

Disse o ministro que «persistem fragilidades estruturais, desigualdades inadmissíveis, bloqueios institucionais e desconfianças acumuladas ao longo de anos de promessas não cumpridas. […] As famílias vivem sob pressão. Os jovens lutam por oportunidades. E há demasiados portugueses que ainda não sentem a esperança de um País à altura das suas legítimas ambições».

É, então, caso para perguntar: se os portugueses «não sentem a esperança», que tem feito o Governo para a alimentar? Que soluções apresenta? Que respostas tem para a crise da habitação, a degradação e ataque a serviços públicos como o SNS, o empobrecimento de uma larga camada dos trabalhadores e do povo…?

e o PCP esclarece

A resposta a esta e a outras questões pode ser extraída da intervenção de Paula Santos, que sublinhou o facto de a solução para os problemas (estes e outros) não passar «pela intensificação da política de direita, como pretende o Governo PSD/CDS, viabilizada por PS, CH e IL». Pelo contrário: «o estado a que o País chegou exige a ruptura com a actual política e respostas concretas», através de uma política alternativa.

A líder parlamentar caracterizou alguns dos muitos aspectos dessa alternativa, proposta pelo PCP, sempre em contraste com as opções tomadas em décadas de política de direita, e aprofundadas por este Executivo: aumento geral dos salários e pensões, e não a perpetuação da pobreza; a valorização do trabalho e dos trabalhadores (com a revogação da caducidade da contratação colectiva ou a aplicação das 35 horas semanais), e não o ataque a direitos, «incluindo o direito à greve»; salvar o SNS e fixar profissionais, e não encerrar urgências ou transferir «largos milhões de euros» para o negócio da doença; investir na escola pública e assegurar a valorização da carreira docente agora, e não daqui a quatro anos.

Mas frisou, também, a necessidade de se: garantir o acesso à habitação (com oferta pública e fixação de tectos às rendas), e não incentivar a especulação; reforçar a protecção social e não atacar a Segurança Social pública, universal e solidária; manter a TAP sob controlo público, e não privatizá-la, alimentando os bolsos de uns quantos; promover a produção nacional e não negar o investimento público; actuar com uma política externa de «solidariedade, cooperação e amizade», e não recusar-se, por exemplo, a condenar o genocídio do povo palestiniano.

«Portugal é um país de enormes potencialidades, com gente de trabalho, resistência e luta. É com esta força e coração, e com uma esperança que não fica à espera, que será possível avançar e concretizar uma política de progresso, desenvolvimento e futuro no País», afirmou.

 

Anúncios não resolvem

O primeiro-ministro anunciou três novas medidas: um suplemento extraordinário para pensionistas; o alargamento do apoio à deslocação de professores; e a redução do IRC .

Ainda no debate, Paula Santos criticou esta última, considerando-a afastar-se do reforço da justiça social e da necessidade de se tributar «os lucros dos grupos económicos e grandes proprietários».

O MURPI criticou o suplemento para pensionistas, classificando-o de «manobra falaciosa e enganadora», que não «consubstancia um aumento de pensões», ao ser pago uma única vez,.

Já a FENPROF considerou que a proposta de alargamento do apoio aos professores continua a ser insuficiente, não resolvendo o problema de fundo – a falta de docentes.

 

 



Mais artigos de: Assembleia da República

Por um museu da resistência no Porto

A bancada comunista apresentou, no dia 21, um projecto de resolução para que a Assembleia da República recomende ao Governo a instalação de um futuro museu da resistência antifascista no Porto, no edifício do Heroísmo, deslocalizando o Museu Militar da cidade, actualmente sediado naquele espaço. A iniciativa prevê,...

«Agenda retrógrada»

Paula Santos denunciou, no dia 16, a forma apressada com que foi imposta a votação das propostas do Governo (acordadas com o CH) relativas às restrições à imigração e ao reagrupamento familiar, e à criação de uma unidade de estrangeiros e fronteiras na PSP. «Estamos perante um processo que decorreu de uma forma que não...

«Zero»

PSD, CDS, CH, IL e PAN aprovaram, com abstenção de PS e JPP, no dia 16, a proposta do Governo para a redução do IRS em 2025 (e o compromisso de nova descida em 2026), o que, frisou Paula Santos, irá passar «ao lado da questão fundamental para melhorar as condições de vida, que é o aumento dos salários», ignorando que a...

«Capturado»

No dia 16, num debate sobre uma petição pela salvaguarda dos direitos de investidores não qualificados no âmbito da comercialização de produtos financeiros, Alfredo Maia criticou a actual estrutura do sistema financeiro, «capturado por grupos económicos e ao serviço do capital estrangeiro». «Palco de alguns dos maiores...

«Destruição paulatina»

O Parlamento discutiu, no dia 16, uma petição em defesa da Quinta dos Ingleses e pela sua classificação como paisagem protegida de âmbito local, a qual Alfredo Maia saudou, criticando a «destruição paulatina deste importante património de Carcavelos, de Cascais e do País». O deputado lembrou que já em Junho de 2021, a...